É possível redescobrir-se? É possível vir à tona e enxergar novas possibilidades mesmo após tanta dor? Sim! Só depende do querer fazer. Já dizia o escritor alemão Goethe: “… O que quer que você possa fazer, ou sonha que o possa, faça-o. A coragem contém em si mesma a força e a magia.”
“Sou batalhadora, muito disciplinada e também reservada”, assim, define-se Sandra. Com aquela energia de mãe amorosa, ela conta que adora curtir sua casa, cuidar das plantinhas e passar a maior parte do tempo ao lado das filhas.
“Depois que meu marido faleceu os domingos ficaram bem parados. Me redescobri trabalhando com orquídeas, plantas... E também praticando Ioga com as meninas, nós três fazemos juntas. O meu prazer é ficar em casa... Com a pandemia muitas pessoas redescobriram as suas casas, eu já faço isso há muito tempo”.
Sandra Mary Alexandria Ferreira Dias nasceu no dia 28 de outubro de 1965 no berço de uma célebre família três-lagoense. Neta do ex-vereador e presidente da Câmara de Três Lagoas, Ostiano Neves Alexandria [in memoriam], ela é filha destas terras e ama as suas raízes.
“Somos uma família bem antiga do município... A rua David Alexandria é em homenagem ao meu bisavô, ele veio da Bahia para contribuir com o desenvolvimento da cidade. Trouxeram ele para auxiliar na construção de pontes”, diz.
O pai, Santos Ferreira da Silva, trabalhava na Usina Hidrelétrica Engenheiro Souza Dias e a mãe, Arlene Mary Mazzi Alexandria, na Secretaria da Fazenda de MS. Sandra conta que a mãe separou-se muito nova e que em seguida o pai faleceu.
Por conseguinte, ela e os irmãos Sandro Marcos Alexandria Ferreira e Sonia Mara Alexandria Ferreira, presenciaram toda valentia da matriarca, na luta para criar e educar sozinha os três filhos. “Me espelho muito na minha mãe, sempre guerreira, acordando cedo para trabalhar e encarar a vida. E é o que eu digo para as minhas filhas: Quero vocês assim, empoderadas, sem depender de marido!”.
Sandra cursou odontologia na UNOESTE em Presidente Prudente, interior de São Paulo formou-se em 1989, voltou para Três Lagoas e trabalhou na área por mais de doze anos. No último ano de faculdade, começou a namorar Walter - seu companheiro de toda vida... - casaram-se em 1990, e juntos formaram uma dupla dinâmica, no amor e nos negócios.
“Eu trabalhava no meu consultório de odontologia e vinha para o comércio para ficar meio período ajudando-o, quando vi estava apaixonada por este lugar. Com o tempo, não estava conseguindo conciliar esta rotina... Então resolvi fechar o consultório e ficar definitivamente no empório”.
O destino não reina sem a secreta cumplicidade do instinto e da vontade; Sandra não se arrepende por não atuar mais como dentista, ao contrário, sente-se realizada por cada decisão que fez, ela cumpriu a sua fase e seguiu o seu coração.
“Muitas pessoas seguem uma profissão para a vida toda, sendo que nós temos muitas possibilidades. Meu irmão é formado em odontologia, mas seguiu o ramo empresarial. Minha irmã é formada em assistência social, mas foi seguir a carreira de professora... Nós somos uma família de pessoas que seguiram suas intuições e os seus sonhos”, diz.
NOSSOS PLANOS
“Falávamos que íamos ficar velhinhos juntos! Ele era muito beijoqueiro, gostava de ficar de mãos dadas... A gente era muito apaixonado, deve ser coisa de outras vidas”, relata Sandra ao falar sobre o seu grande amor.
Sandra e Walter foram casados por 29 anos. O cupido desta relação foi a senhora Arlene, que o conhecia desde que ele era criança. “Nossa família era praticamente vizinha, minha mãe o achava muito educado, muito bonitinho desde criança, apesar de que ele zombava de mim quando éramos crianças, me chamando de ‘pozinho de arroz’... E olha só, ele casou com o pozinho de arroz!”.
Apesar da insistência da mãe, o namoro só foi acontecer anos depois. “Tenho mais anos ao lado dele do que sem ele. Tivemos um casamento muito feliz”.
No ano de 2012 Walter foi diagnosticado com câncer de intestino, juntos, o casal enfrentaria esta nova batalha.
“Ele não mostrava para ninguém que estava doente, foram cinco anos de tratamento e mesmo assim ele continuava alegre. Era de bem com a vida, tudo era uma farra. Então nós levamos esta fase de uma maneira bem leve. Eu e minha irmã temos até vergonha de falar que vamos desistir de alguma coisa, porque nossos pais foram firmes até o fim”, diz Giovana.
“Mesmo com o câncer ele vinha trabalhar, fazia tudo, pouca coisa mudou na rotina dele”, completa Joana.
Após muitos anos de luta, Walter deixou este plano físico e muita saudade no coração da família, dos amigos e dos clientes. Sandra seguiu sem o seu companheiro... Apesar da tristeza, foi forte por suas filhas...E por ele também.
“Já me questionaram ‘Seu marido está doente, como você ainda sorri?’ - E eu respondi: Ele era um ser de muita luz, sempre alegre - mesmo durante o período de tratamento. Ele levava a vida com leveza, e juntos fizemos tudo o que foi possível para que continuasse conosco. Lutamos com ele até o fim”.
Walter era um pai e marido carinhoso. Amava o seu cantinho, mas acima dele estavam as filhas e a esposa - seus verdadeiros tesouros.
“Quando ele faleceu nós tivemos que abrir o cofre e lá nos encontramos nossos desenhos de quando éramos crianças... Ele guardava todos, como se fosse a maior riqueza dele. No cofre haviam apenas fotos nossas, da minha mãe e os desenhos...”, relembra Giovana.
“Basicamente os desenhos eram: minha mãe ao lado do meu pai, que sempre estava com uma maletinha na mão trabalhando e eu e minha irmã brincando com os cachorros”, diz Joana.
Como ele era um homem que amava presentear, também foi presenteado por todos que o conhecia; a família conta que o empresário era tão querido, que na época do velório as flores esgotaram na cidade.
“Na primeira vez que fui no lugar do meu pai para São Paulo, encontrei um dos melhores amigos dele. Fui com um funcionário, que me disse ‘entra lá e não fala nada, só entra que ele vai saber quem você é’. Eu entrei, esse amigo olhou nos meus olhos e começou a chorar muito - conta emocionada - ele me perguntou se podia me abraçar, então ele me abraçou e disse que eu era a cara do meu pai, parecia até que ele estava vendo ele. Mesmo sem eu ter dito quem eu era”, afirma Giovana.
“Eu acredito que ele morreu mais cedo porque ele era muito bom. Acredito que as pessoas que são muito boas e que já cumpriram o seu ciclo aqui logo vão embora... Mas eu ainda tenho que pagar os meus pedacinhos na terra... Fiquei para cumprir o planejamento das nossas vidas, as nossas metas... Como ver as filhas formando, trabalhando, casando, nos dando netos...”, emociona-se Sandra.
Veja a matéria completa na edição 94 da Rara Gente.
