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"Estou sempre sorrindo. A fé me move e eu vivo”

Vaidosa, jovial e memorável. Conheça esta personalidade ilustre de Três Lagoas.

Bruna Taiski
20/07/20 às 08h00
Vaidosa, jovial e memorável. Conheça esta personalidade ilustre de Três Lagoas.

Os bailes estavam em voga. De saia rodada até os joelhos, cintura marcada e muito glamour, Daura chamava atenção de um rapaz no outro lado do salão. Anísio Alves, maquinista no Noroeste Brasil e seu futuro marido.

“Sempre foi muito bom para mim. Eu era namorada firme, mas ele viajava muito. Um dia fui escondida no baile, o Baile de Azul, fiz um vestido azul lindo!  Neste dia saiu um torneio com dez casais para ver quem dançava melhor, eu entrei nessa e para minha surpresa...Ganhei!  Eu chegava a tremer em pensar que o Anísio chegaria no outro dia e descobrisse que eu ganhei o concurso de bolero - ri - Eu adoro bolero até hoje”.

“No outro dia de manhã sai para a padaria e vi na capa do jornal- o antigo Noroeste e Comercial – a manchete 'Dorinha dançou com Albino Duran e venceu o concurso de Bolero' pensei 'Meu Deus, morri' - O Anísio chegou no dia seguinte e terminou comigo, me entregou a aliança, e eu peguei humilde...Nós combinávamos bem, íamos em baile, tudo, depois voltamos”.

Quando reataram foi para casar. Querida pela família Tibery, ela ganhou o vestido de noiva, o enxoval e a elegante festa de casamento.

“Me casei na Igreja Matriz. A Maria Celinha que cantou no meu casamento. Era uma moça cega, a voz dela era a coisa mais linda. Eu chorei. Ela só tocava para pessoas bem ricas, mas o Dr. Orestes e a Dona Ruth fizeram o meu casamento de rico!”. Neste momento ela mostra o porta-retratos com a foto do casamento, Dorinha estava com um vestido longo de mangas compridas e um buquê de flores que descia até a calda, o marido também estava impecável.

“Ele era grã-fino que você precisava de ver! Quando ele entrou na ferrovia, usava uniformes de brim e a Maria Fumaça soltava fagulhas que queimavam a sua roupa. Quando chegou a máquina a diesel, aí ele era o maquinista mais chique. Usava abotoadoras e tecidos em cambraia”.

Anísio começou a pintura da Ponte Francisco de Sá, no Jupiá. Mas, em 1982 teve uma parada cardíaca e partiu para outro plano. Deixando lembranças, conselhos e aprendizados para os nove filhos que teve com a amada.

Porta-retratos

“Tenho 85 anos e graças a Deus estou bem lúcida. O sofrimento me fez ter a memória e o coração mais fortes".

Espalhados por todos os cômodos da casa, Tia Dora caminha no seu tempo mostrando os porta-retratos da família. “Nosso réveillon e natal eram nessa sala, cabiam todos aqui. Mas foi crescendo e tomando uma proporção...Hoje só podemos reunir todos se alugarmos um espaço”.

Ela revela que a cada semana um familiar faz aniversário. São quatro ou três festas organizadas ao mês. Sem contar os eventos anuais, que se tornaram importantes tradições, como a UNIFA – União das Famílias.  “A família Machado, Nascimento, Montalvão...Nós alugamos um clube, contratamos um pagode e festamos”.

No entanto, em tempos de pandemia, as últimas festas foram canceladas, incluindo o famoso aniversário da Tia Dora, regado a pagode e comida boa. Mas, a família não deixou de homenageá-la. Sentada em uma cadeira na frente de casa, ouviu de longe o barulho das buzinas... Filhos, netos, bisnetos, sobrinhos, fizeram uma carreata com direito a canção ‘Sorriso Negro’ tocando bem alto. A emoção foi grande.

Saudade nestes tempos tem sido um sentimento universal. Adailton, o filho que mora com ela diz que estão tomando todo o cuidado, destacando que as visitas – necessárias – ficam atrás das grades do portão e aparecem para dar um oi de longe.

“Ela está preocupada em não poder abraçar ninguém, ou ter o contato físico. Até no Dia das Mães, foi quando ela sentiu bastante de não poder estar com nenhum filho... Mas está tranquila em relação a se resguardar, porque sabe que em breve estaremos todos juntos novamente”, diz.

Dora define a relação dos filhos como ‘irmãos e amigos’, inseparáveis e fiéis. “Quando um tem filho chama o irmão para ser o padrinho, ou quando se casam chamam o outro irmão para ser o padrinho também. E eles são assim, podem brigar o dia inteiro, mas no outro dia de manhã já abraça, dá beijo”.

Mesmo perdendo o pai tão cedo, seus meninos e suas meninas sempre foram responsáveis e estudiosos. Todos são formados em faculdades federais, os filhos são economistas e as filhas pedagogas pós-graduadas.

Com lágrimas nos olhos, lembra do falecimento do oitavo filho. Adenilson passou em um concurso para Polícia Civil em Campo Grande e foi fazer uma das etapas da prova prática. Lembra que, durante uma corrida quando faltava um metro e meio para completar a prova ele caiu, enfartou. “Ele era tudo, minha alegria, tocava cavaquinho que era uma beleza! Infelizmente ele teve que partir. Mas acredito que ele está em seu plano nos vendo e ouvindo”, destaca.

Adenilson, conhecido também como “Nenê”, ganhou uma homenagem da cidade. Seu nome ‘Adenilson Luiz Alves’ batiza uma das ruas do bairro Nova Três Lagoas.

Dora não se entregou para a tristeza, continuou sendo o elo forte e de sabedoria da família. “Tenho 85 anos e graças a Deus estou bem lúcida. O sofrimento me fez ter a memória e o coração mais fortes. Morreram todos os meus irmãos, mas meus sobrinhos estão sempre aqui. Por ser a matriarca, eles vem pedir conselhos, fazer companhia, as vezes choram, sofrem, mas logo estão festando comigo”.

'Só Nois'

Em cima das estantes os vários troféus lustrados, a sala é repleta de ouros, pratas e medalhas. A veia esportiva é forte nesta família, e possibilitou a criação do Clube de Futebol ‘Só Nois’, fundado pelo filho ‘Didé’, onde jogam os filhos, netos e agregados. Tia Dora é presidente de honra do time e também presidente da Escolinha de Futebol Recanto do Galo, ela é presença confirmada nos campeonatos. “Eu entrego o troféu para o time campeão. Adoro!”.

No mês de dezembro de 2019, recebeu homenagem com direito a festa e churrasco do Clube dos Amigos Esportistas – CAE - que tem como lema: solidariedade, respeito e amizade.

Coração jovem

Ninguém ama mais a vida do que uma pessoa vivida o bastante para admirá-la da forma mais completa. Tia Dora sabe viver, ela canta, dança, ri, chora e ama! Sem vergonha de expressar o que sente, ela é autêntica. O segredo dessa juventude? A fé!  “Eu gosto de ser assim e acredito muito que estou fazendo o certo. Tenho minha fé e estou sempre sorrindo. A fé me move e eu vivo”.

Sempre animada, ela comparece em bailes, shows, e quando tem pagode lá está ela disfrutando da sua alegria. “Estou sempre feliz e meus filhos me acompanham”, enfatiza ela que diz ficar triste quando sai cedo de uma festa. “Esse ano fui a uma festa de carnaval e meus filhos criaram um bloquinho com meu nome ‘Bloco Tia Dora’. Ficamos até terminar. Não gosto de sair cedo. Já vieram me perguntar por que eu estava triste e eu disse que foi por que sai antes das três da manhã de um baile”.

Já dizia Dona Ivone Lara...O samba não pode parar! E se depender de Daura do Nascimento Alves, ele continuará, por muitos anos. “Eu lembro de tudo com facilidade. Tenho muita clareza. Minha vida foi desse jeito, mas graças a Deus, com toda as dificuldades eu aprendi a AMAR, aprendi a VIVER, sempre com fé”.

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