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A lendária tia Dora: Conheça esta personalidade ilustre de Três Lagoas

“Vou fazer 85 anos e graças a Deus estou bem lúcida. O sofrimento me fez ter a memória e o coração mais fortes”

Bruna Taiski
06/07/20 às 08h00
Alegria em pessoa, Dorinha representa a luta da mulher brasileira.

“Um sorriso negro, um abraço negro, traz felicidade...”, ao tocar o samba da cantora Dona Ivone Lara, todos levantam para dançar, já sabem para quem a canção é dedicada. De vestido brilhante rendado e colar de pérolas, Daura do Nascimento Alves dança toda majestosa com os filhos, netos e bisnetos.

Você pode não a conhecer pelo nome de batismo, mas certamente já ouviu o apelido do qual ela é carinhosamente chamada, a Tia Dorinha. Personalidade ilustre de Três Lagoas, aos 85 anos de idade, ela recebe a Gente na sua casa no bairro Nossa Senhora Aparecida. Na sala, decorada com quadros da família, nos contou a sua história e revisitou todos as épocas memoráveis do município.

Mãe de Anísio, Marisa, Marileide, Marilene, Amilton, Adelson, Adilson, Adenilson e Adailton. Tia Dorinha tem 20 netos e 23 bisnetos, sem contar os agregados que sempre acabam chamando-a de mãe, mãezona. “Meus meninos sempre foram esportistas e rodeados de muita gente, muitos amigos vinham para casa. O pessoal falava “Vamos lá para a casa da Tia Dora”. Assim passei a ser chamada de tia. Eu fazia muita comida e recebia todos com muito amor, era como um vínculo familiar, até me pediam ‘benção’ e pedem até hoje”.

Placas de homenagens, abadás e bloquinhos de carnaval, em todo lugar ela é recebida como uma verdadeira estrela, pudera, já que vivenciou várias transformações na cidade e conheceu outras grandes personalidades que empregam o nome das Escolas Municipais e Avenidas. “Já recebi muita homenagem na Câmara, os vereadores até brincam ‘Tia Dora, quantas vezes a senhora já veio aqui?’ e eu respondo "Vocês que são culpados, me convidam e eu venho!”

Pandemia

Pela primeira vez em quinze anos, a Rara Gente não pode fazer a produção para essa capa. O editorial é pensado e planejado com antecedência com os profissionais do set – maquiador, hairstylist, produtores de moda, fotógrafos – para entregar toda a essência da história que captamos.  No entanto, devido ao isolamento social causado pelo novo coronavírus nós mudamos o olhar nestas fotos.

Não a trouxemos para o estúdio, mas a deixamos em casa – sendo fotografada a dois metros de distância – na mesma sala em que sentamos para conversar antes da pandemia. Com todos os cuidados de higienização, distanciamento e uso de equipamentos especiais para protegê-la.

Tia Dora, sempre vaidosa, não precisou da equipe e fez a própria maquiagem, cabelo e escolheu o look, como se estivesse se arrumando para as festas que adora. Acertamos em cheio, é esta alegria e espontaneidade - mesmo em tempos tão sombrios – que gostaríamos de trazer. A Dorinha, como ela é.

Raízes eternas

“Minha infância foi muito triste. Aprendemos a escrever no chão porque não tinha lápis. A mamãe era doce, quietinha...Quando ia ensinar, limpava o chão bem limpinho e escrevia com gravetos. Ela escrevia o abecedário, palavras simples, sílabas. Com tanta dificuldade, a importância de aprender a ler, escrever, ter valores era maior”.

Em 25 de abril de 1936, mesmo ano em que nasceu o político Ramez Tebet e inaugurou o ‘Senhor do Tempo’ – Relógio Central – de Três Lagoas, Maria Abadia Machado do Nascimento e Ernesto Quirino do Nascimento comemoravam a vinda da segunda filha, Daura, uma menina doce e amorosa.

Ernesto era serrador de madeiras, um pernambucano ‘arretado’, genioso nas palavras de Dorinha. “O papai era rebelde, muito danado, mas trabalhador, ele nunca judiou de nós, nem da mamãe”.

Vivendo no município, a vida da família tomou outro rumo. Mudaram-se para a zona rural de Goiânia – Goiás – por um motivo inusitado...

“Meu pai foi para Goiás porque ele matou um soldado do exército. Procuraram ele, e ele foi se mudando para cada vez mais longe até chegar em Goiás. Meu avô e minhas tias questionaram a minha mãe ‘Onde já se viu, uma mulher se casar e largar o marido, não acompanhar? Tem que ir embora’ e a mamãe foi junto levando os seis filhos e grávida do sétimo”.

O vizinho mais próximo do novo lar ficava à três léguas, a parteira vinha a cavalo para atender Abadia, que estava em trabalho de parto. Os gritos de dor ecoavam na pequena casa, a irmã caçula estava nascendo. A mãe, percebeu que a comadre não chegaria a tempo, tirou as crianças do quarto e se trancou. Deu a luz sozinha.

“O pai foi chamar a parteira mas não deu tempo. Quando ela chegou Delcides havia nascido. Nós éramos crianças e ouvimos tudo, ela nos tirou do quarto e enquanto chorava e gritava de um lado, nós chorávamos e gritávamos de outro. Nasceu o bebê só com ela, ela levantou, limpou a cama, deitou e disse que poderíamos entrar. Nós entramos chorando...Um atrás do outro. Agora você imagina o que ela enfrentou. Éramos em sete irmãos, agora só estou eu...”

Mulher de garra, Abadia ensinou os filhos Dirce, Dilma, Diva, Darci, Delcides, Doraci e Daura a serem fortes, resilientes e felizes. Esforçou-se para ensinar tudo o que pôde, preferia que aprendessem com ela do que com o mundo, por isso teve muita paciência, e mesmo quando não sabia sobre algum assunto, fazia o seu melhor para aprender e ensinar.  “Minha infância foi muito triste. Aprendemos a escrever no chão porque não tinha lápis. A mamãe era doce, quietinha...Quando ia ensinar, limpava o chão bem limpinho e escrevia com gravetos. Ela escrevia o abecedário, palavras simples, sílabas. Com tanta dificuldade, a importância de aprender a ler, escrever, ter valores era maior”.

A educação corre nos galhos da árvore genealógica, o ex-vereador Gentil Rodrigues Montalvão, que hoje dá nome a uma das escolas municipais de Três Lagoas era primo de Dorinha, e por meio dele, ela e os irmãos receberam o primeiro caderno. “Ele comprou nossos cadernos e não tínhamos lápis, continuamos escrevendo no chão. Mas depois a mamãe teve ideia de raspar o carvão e transformá-lo em lápis”.

Ao voltarem para Três Lagoas, a família Montalvão, logo, encaminhou todos os irmãos para a ‘Escola Dois de Julho’, atual João Magiano Pinto (JOMAP). O próprio educador, marido da professora Eufrosina Pinto, prometeu para Abadia que todos eles teriam direito à educação. “João Magiano era um baiano muito querido pela família. Ele fez uma promessa a minha mãe: 'Vou educar os filhos seus viu, Abadia? Você não vai sofrer não".

Quando Dorinha completou onze anos, a mãe faleceu. “Minha mãe me ensinou tudo nesta vida, e mesmo que não a tenha mais ao meu lado, sei que ela está presente comigo de alma e coração, honro a sua memória sendo quem ela me educou para ser”.

Gostou da matéria? Confira a história completa da Tia Dora na edição 92 da Rara Gente que já está nas bancas!

PONTOS DE VENDA:

Padaria Santo Pão
Av. Dr. Eloy Chaves, 707 - Centro, Três Lagoas - MS.
Telefone: (67) 3522-4245.

Paneteria Ki-Pão
Endereço: Av. Filinto Müller, 892 - Centro, Três Lagoas - MS.
Telefone: (67) 3521-3443.

Grupo Agitta

Av. Rosário Congro, 2910
(67) 3524-5030

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