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Economia na infância

Aprender a lidar com dinheiro, desde o início da vida, ajuda a formar adultos conscientes com ganho, gastos e padrão de consumo.

Rara Gente
05/07/24 às 18h40

Dinheiro é bom, todo mundo quer, inclusive as crianças. Elas não só querem, mas amam porque, na visão inocente, representa algo até mesmo lúdico, afinal dinheiro pode parecer uma varinhal de condão que, magicamente, transforma desejos em realizações e alegrias.

Um exemplo da relação mágica é que, para a maioria, dinheiro brota do nada. Quem nunca ouviu um pega na maquininha do banco, passa seu cartão, faz um pix, quando elas querem consumir algo e os adultos contrapõem que não têm disponivel. Desde pequenos, o relacionamento pode ser distorcido: ou a criança tem tudo o que quer, ou sofre restrições.

No final, o risco de crescer sem ter um relacionamento saudável com o dinheiro é enorme. Adultos consumistas, perdulários ou avarentes demais devem isso ao jeito com que aprenderam a viver comou semele, desde a infância. É aí mesmo que o lema educação financeira se faz urgente, principalmente para as crianças do hoje, aquelas que convivem com uma sociedade que transita do extremo consumo à extrema escassez.

QUESTÃO DE FAMÍLIA

Para a pedagoga e economista Uleima Domingues Benez, diretora do Colégio Maple Bear, esta é uma questão de responsabilidade prioritária da família, mesmo quando há um reforço vindo de práticas pedagógicas aplicadas em ambiente escolar. "Acredito que a escola possa ter um papel mais ativo sobre a educação financeira, mas isso ainda será mais forte no ambiente familiar, pois os filhos observam o comportamento dos pais sobre esse assunto, também indiretamente, como nos hábitos de consumo", afirma.

Uleima conta que a escola, onde atua, aplica exercícios de matemática que já trabalham a educação financeira, a partir do primeiro ano do fundamental. "Um exemplo é o uso de dinheiro de papel para ir à feira ou ao supermercado, temos esses espaços em sala de aula para fazer compras com orçamento a ser cumprido e até para controlar o valor mínimo de troco a ser devolvido. Nesse exercício, as crianças aprendem matemática, orçamento, vocabulários e socialização de forma divertida. Pode ser uma maneira dos pais praticarem isso no dia a dia também", recomenda. 

A pedagoga orienta que moderação de consumo, é uma lição que a família pode empregar desde a mais tenra idade, por meio de ações e práticas cotidianas que servirão de exemplo. Mesmo sem o uso de dinheiro, ela orienta que os filhos sejam levados a exercitar o limite financeiro, como um valor destinado para sua compra individual no supermercado, por exemplo.

"Quando meus filhos eram pequenos, eu os levava ao supermercado e cada um deles podia escolher três produtos para comprarem, como o chocolate preferido, o iogurte e uma bolacha, claro que dentro dos hábitos alimentares da família. Assim também pode ser feito quando levamos a criançada ao shopping para se divertir naqueles brinquedos interativos. Podemos combinar antes em quantos brinquedos a criança poderá ir. "Sei que na teoria é fácil e, na prática, nem tanto, mas isso não é construído do dia para a noite. A família precisa ir colocando em cada oportunidade do dia a dia, para que essa consciência monetária nasça e cresça de forma progressiva e com naturalidade", ensina.

Uma boa estratégia, segundo ela, é combinar, antes mesmo de sair de casa, um orçamento com os filhos mais velhos e, com os mais novinhos, a quantidade de peças que poderão escolher. Além disso, é importante que a flexibilidade para estourar o orçamento não seja muito grande para que não se crie a ideia de que está tudo bem gastar mais do que se tem disponível. No caso de estourar, peça que troquem o item ou negocie que será descontado da próxima vez.

"ACREDITO QUE A ESCOLA POSSA TER UM PAPEL MAIS ATIVO SOBRE A EDUCAÇÃO FINANCEIRA, MAS ISSO AINDA SERÁ MAIS FORTE NO AMBIENTE FAMILIAR".

MESADA OU ORÇAMENTO?

Para uma comunicação mais eficiente, que faça os filhos. entenderem a maneira de lidar com o dinheiro, Uleima avalia que trocar o termo mesada por orçamento pode ser bastante eficiente, assim como introduzir a questão de acordo com a maturidade. O orçamento pode ser explicado passo a passo. Para os filhos maiores, entre oito e 10 anos, por exemplo, o orçamento pode ser semanal, para os maiores, a partir de 14 anos, pode ser mensal. Para os pequenos, o orçamento, por ser a concessão de uma atividade de lazer ou produtos, pode ser a liberação para comprar um número de itens à escolha". 

Assim, cada qual, na sua idade, consegue visualizar as lições, seja pela quantidade ou pelo raciocinio monetário. De acordo com o aumento da idade, a fórmula pode evoluir. Junto, vai se formando uma educação financeira e outra cultura de consumo, "Todo hábito, seja saudável ou não, inicia-se na infância. Um olhar de consumo consciente não é diferente disso".

Outra questão, sobre a qual Uleima sugere que as famílias pensem suas estratégias é sobre remuneração de filhos por pequenos serviços domésticos. "Essa questão pode ser um pouco polêmica, mas acho que vai muito da cultura familiar. Eu acredito que toda educação e olhar de empatía com o próximo começa em casa, entào viver de forma colaborativa também se inicia no seio familiar. Não sou do time que remuneraria essas responsabilidades domésticas. Mesmo para famílias que têm colaboradores contratados para o serviço doméstico, creio ser interessante que a criança tenha suas obrigações diárias, dentro da sua faixa etária”.

Imagem ilustrativa

FLEXIBILIZAÇÃO

Quando a ideia é educação financeira, principalmente para o uso do dinheiro que ainda não se ganha, endurecer sem perder a ternura e levar a sério que o combinado não é caro pode ser a diferenca que levará ao sucesso da missão, refletindo-se num adulto de bons hábitos de consumo, de ganho e gasto de dinheiro de forma saudável.

"Gostaria apenas de lembrar que o importante é cumprirmos a combinado para dar certo. E resistir de forma firme e carinhosa, ao mesmo tempo, quando os filhos insistirem, afinal, as crianças ou os adolescentes nos testam bastante, o que é natural e esperado, principalmente na adolescência que é uma fase onde estão começando a querer ser mais independentes e ter mais voz". Enfim, educação, até na hora da grana, é mais sobre os pais do que sobre os filhos.

PEQUENOS HÁBITOS

Helena tem três anos e já tem um cartão com limite mensal de R$ 60,00 para gastar conforme suas vontades. A família auxilia na gestão, e sua mãe, Fernanda Góes, conta com humor que a pequena já tem uma referência sobre os recursos disponiveis: a quantidade de Kinder Ovo que consegue comprar com o saldo. "Ela gosta mesmo de comprar doces, mas já está conseguindo visualizar o limite, sabe que pode acabar", explica Fernanda.

Mesmo sabendo que os filhos, quando adultos, possivelmente nem saberão o que é uma cédula de dinheiro, já que os meios digitais de pagamento se aprimoram com velocidade, a família de Helena planeja iniciar algumas experiências com o dinheiro vivo, com objetivo de materializar o relacionamento, por enquanto apenas digital. "Acredito que a escola pode ajudar bastante e dever a auxiliar as famílias com esta educação sobre gasto, consumo e empreendedorismo", opina a mãe. Samuel, de dez anos, tem uma rotina bem prática na gestão dos seus R$ 200,00 mensais.

Ele já entende a importância de seus compromissos e o valor não só do dinheiro, mas de sua assinatura também. Para receber a mesada, ele assinou urm contrato de prestação de serviços e de metas de gerenciamento com a mãe, Elaine Freitas. O contrato estabelece as obrigações, como limpar o coco do cachorro, arrumar o quarto e lavar pequenas louças. "Ele me pediu para pagá-lo pelos serviços e fizemos o contrato. Caso não cumpra as tarefas, recebe advertência verbial", Elaine. Ele mesmo faz seus gastos com dinheiro vivo e controla os trocos e saldos. "Quando é algo mais caro, ele fica com dó de gastar e me pede pra comprar. Mas sempre falo que é responsabilidade dele”, afirma.

“TODO HÁBITO, SEJA SAUDÁVEL OU NÃO, INICIA-SE NA INFÂNCIA".

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