Lifestyle

Comportamento: O virtual é real?

A internet permitiu com que vínculos virtuais fossem estabelecidos mais facilmente. Mas será que estamos seguros por trás da tela do computador ou do celular?

Rara Gente - Daniela Galli
01/06/22 às 08h00

 “O mundo é uma aldeia global”, disse o sociólogo canadense Herbert Marshall McLuhan em uma de suas obras, ‘A Galáxia de Gutenberg’, de 1962. Já naquela época ele começou a esboçar a ideia do que se transformaria a sociedade com o avanço tecnológico dos meios de comunicação de massa.

Ele acreditava, e na verdade ele estava certo, que um dia os aparelhos eletrônicos seriam responsáveis por encurtar as distâncias entre as pessoas fazendo com que o planeta tivesse a impressão de que, a partir desta conexão, estaria vivendo em uma grande aldeia, a ‘aldeia global’. 

Desde as já consideradas ‘pré-históricas’ salas de bate-papo, passando pelo barulho inconfundível do extinto ICQ, pela tela piscando do MSN, as comunidades no inativo Orkut até os aplicativos de relacionamento mais conhecidos atualmente, em algum momento a maioria das pessoas já teve ou tentou ter um relacionamento virtual, seja ele de amor ou de amizade. 

A rapidez com que as coisas acontecem favoreceu muito este tipo de comunicação. Porém trouxe à tona também o quão frágil pode ser a nossa segurança, haja vista a quantidade enorme de golpes aplicados a partir destas relações.

Na opinião do psicólogo Marcos Martinelli, ninguém está livre de se relacionar através da internet. “Não existe um padrão que vai determinar quem procura mais este tipo de envolvimento virtual porque hoje em dia todos nós estamos conectados. A qualquer momento posso baixar um aplicativo e ‘encontrar’ alguém”. 

Mesmo assim ele acredita que as pessoas que são mais tímidas e introvertidas costumam preferir este tipo de ‘aproximação’ através de aplicativos. “A internet permitiu que as fantasias e desejos fossem exteriorizados sem sentimento de culpa ou julgamento alheio. Para os relacionamentos amorosos é ainda mais fácil porque você consegue traçar exatamente o perfil desejado ou procura pretendentes que mais te atraiam. 

Para Martinelli o contexto no qual estamos inseridos há dois anos, isto é, em meio a uma pandemia e ao isolamento social, favoreceu muito o aumento deste tipo de relação, todavia contribuiu muito também para que muitos relacionamentos chegassem ao fim. “Foi uma situação totalmente atípica nas nossas vidas, muitas coisas novas aconteceram e o aumento dos laços virtuais foi prova disso.

Isso não vale somente para relações amorosas, mas também para as amizades e até com colegas de trabalho”. Ele diz ainda que todos passaram a buscar coisas novas na internet, uma vez que o tempo ocioso aumentou e a grande rede era o recurso mais próximo para conhecer pessoas. “Hoje já é possível ouvir relatos de quem apenas acessou ou ainda acessa estes aplicativos de relacionamento só para conversar, sem a necessidade deste bate papo evoluir para um relacionamento amoroso”. 

O psicólogo explica que este cenário pode permanecer o mesmo ainda que estejamos em um período de flexibilização das medidas de combate ao coronavírus. “Há quem tenha se acomodado nesta forma de relacionamento pois ela é bem mais ‘fácil’ e permaneça online. Em contrapartida haverá aqueles que vão preferir voltar para o flerte presencial, à moda antiga”.

FAÇA UM TESTE

Olhe para o lado e pergunte para a pessoa mais próxima se ela tem ou teve algum laço virtual de qualquer natureza, amizade, amor ou trabalho. Fatalmente a resposta vai ser sim. E mais: algumas destas ligações serão tão importantes ou mais do que as que ela pessoa tem presencialmente, mesmo que ela nunca tenha visto a pessoa com a qual se relaciona virtualmente.

Martinelli revela que isso acontece por conta dos inúmeros recortes que é possível fazer quando estamos por trás da tela do computador ou do celular. “Na ‘biografia’ dos sites de relacionamentos você já descreve seus interesses e com quem deseja se relacionar. Por isso a demanda já vem específica, os gostos e os desejos são quase semelhantes. Outro ponto é a intensidade da conversa. No trabalho a aba com a foto da pessoa está ao lado, você compartilha segredos, sonhos, faz planos etc”.

Ele explica que, com isso, nós criamos expectativas e, na verdade, criamos não só um perfil para nós mesmo, mas também nossa mente cria o perfil da outra pessoa também. “O outro passa a ser o receptor destas expectativas. É o par idealizado, é como se ele te acolhesse, por isso a sensação de conhecer a pessoa há muito tempo começa a se instalar. Isso nos dá segurança, confiança e aumenta ainda mais o vínculo”. 

É SAUDÁVEL?

Martinelli diz que não é ruim manter relações virtuais, porém, algo mais duradouro exige a pessoa face a face, mesmo com toda a sensação de intimidade que esse relacionamento pode causar. “Os aplicativos e as redes sociais permitem que façamos um recorte e mostremos somente o que queremos. Para um relacionamento temporário isso dá certo. Mesmo que você tenha se identificado com a pessoa virtualmente, é o cara a cara que vai dizer se a relação vai ser saudável ou não”.

Embora os laços sejam bastante fortes nestas relações, nada substitui o contato físico. “Para nós, brasileiros, o abraço, o beijo, estar próximo quase que faz parte do nosso DNA. Nós temos necessidades afetivas e emocionais que muitas vezes precisam ser supridas com a pessoa do nosso lado. O vínculo virtual pode até existir, mas, sem tocar a pessoa, aos poucos ele diminui.


Àqueles que estão prestes a encarar um relacionamento virtual, o psicólogo sugere que as expectativas devem ser reduzidas ao máximo. É preciso estar com os ‘pés no chão’. “Cada um vai alimentar essa relação com aquilo que mais deseja, utilizando seus filtros de acordo com as suas vulnerabilidades que nem sempre são tão óbvias assim. Por isso é importante se conhecer, com isso você pondera bem mais os seus envolvimentos”.

O OUTRO LADO

Não se pode esquecer que muitas vezes quem está do outro lado da tela está longe de ser a pessoa com a qual sonhamos. O documentário ‘O golpista do Tinder’ e o seriado ‘Inventando Anna’, ambos lançados este ano pela Netflix, trouxeram luz aos inúmeros golpes aplicados com as facilidades proporcionadas pela internet. 

De acordo com uma pesquisa da PSafe, uma empresa de cibersegurança, divulgada no mês de março deste ano, cerca de 25% dos brasileiros já foram vítimas de perfis falsos na internet durante seus relacionamentos virtuais. 

Dentre os participantes, mais de 34% afirmou que já se relacionou com alguém que conheceu pela internet. Mais de 10 mil pessoas foram ouvidas. Quem se utiliza de um perfil falso para seduzir os usuários com o objetivo de enganar e prejudica-los financeiramente é chamado de ‘scammer’, ou simplesmente golpista, no bom e velho português. 

Este tipo de golpe já pode ser considerado bastante popular na internet. Desde o final do ano passado até o começo de 2022, a PSafe já bloqueou mais de 8,5 mil perfis falsos em diferentes redes sociais e aplicativos de relacionamento. Mais de 70% dos entrevistados disse ainda que não se sentem seguros nestas plataformas. 

Segundo Martinelli, não é possível traçar um perfil exato das pessoas que passam a crer nos golpistas, porém, para ele, a maioria delas são mulheres, principalmente quando o golpe está relacionado a um relacionamento amoroso. “Nossa sociedade prega que ter alguém para chamar de seu é sinônimo de sucesso”.

O sexo feminino fica mais vulnerável porque tem a tendência de idealizar uma pessoa que vai suprir suas necessidades afetivas e financeiras. “Por isso elas ficam em uma posição muito mais vulnerável”.

Já os golpistas possuem um perfil bastante específico. “São pessoas sedutoras, conquistadoras, galanteadoras, falam tudo o que a outra pessoa quer ouvir. Eles investem pesado na valorização da auto estima da mulher”, explica Martinelli, “elas têm uma resposta diferente dos homens. Se alguém faz um elogio elas sentem afeto. Como ele sabe disso logo acolhe, entende as questões dela, é receptivo e simpático. Ele cria um personagem para conquistar mulheres”.

SERÁ QUE É DOENÇA?

Muita gente pode pensar que o excesso de mentiras indica a existência de alguma doença, todavia o psicólogo esclarece que nem tudo é transtorno. “Muitas pessoas agem por maldade, falta de caráter ou frieza mesmo”.

Quando há alguma patologia ela está associada a um transtorno de personalidade antissocial, estes são os casos mais comuns segundo Martinelli. Eles podem ter ainda um transtorno de personalidade narcisista. “São pessoas capazes de aplicar golpes com frieza e que sempre querem tirar vantagem das outras. Elas enganam muito bem com fotos e com ostentação”.

COMO SE PROTEGER?

O psicólogo explica que o primeiro passo para se proteger é perceber que tudo está muito fácil. “É preciso prestar atenção nos pequenos detalhes. Desconfie de algumas informações, o quanto ele compartilha da vida dele, se o que ele fala tem coerência”.

Em contrapartida, Martinelli diz para evitar exposição excessiva nas redes sociais. “Convém ter cuidado e equilíbrio às informações que qualquer pessoa pode ter acesso”. Outra estratégia, segundo ele, é investigar a pessoa, colocar o nome dela nos buscadores de conteúdo e ainda compartilhar a história com um amigo ou parente.

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
ÚLTIMAS EM LIFESTYLE
RARA Gente - A mais tradicional revista de Três Lagoas
Editor responsável:
Ivete Binda Mendonça
agitta@agitta.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2022 - Grupo Agitta de Comunicação.