Para a funcionária pública Michela Moraes, de 45 anos, as mulheres, na verdade, não são ‘forçadas’ a seguir um padrão de beleza, mas sim ‘condicionadas’, sejam eles quais forem, para que elas possam se sentir inseridas em grupos. “Por carência, baixa autoestima, ou por negligenciarmos nossas próprias vontades acabamos nos ‘forçando’ seguir o que é estabelecido pela sociedade”.
Ela conta que, não sofreu com a obesidade na infância, mas que começou a ganhar pelo durante a faculdade. “As rotinas mudaram, o tempo livre diminuiu e o peso veio. Até os meus 35 anos tinha um corpo harmônico, mas as pressões já faziam com que eu me preocupasse demasiadamente”.
O resultado disso não foi nada fácil para ela. “Sofri gordofobia de várias formas, discreta e escancarada. Mas a maior pressão vem sempre das pessoas que mais amamos. Não é pior que as demais, mas a forma como reagimos a elas é mais dolorida”. Michela diz ainda que, durante dez anos, tomou até anfetaminas para tentar combater o excesso de peso.
Hoje, na vida adulta, Raquel afirma que não se preocupa muito com a opinião de outras pessoas mas as cobranças permanecem. “Em ambiente de trabalho fui cobrada a andar sempre de salto e o uso da maquiagem era uma obrigação para conseguir determinada vaga”.
A psicóloga Paula Lidiane Ribeiro confirma que as principais ‘vítimas’ dos padrões de beleza impostos pela sociedade são as mulheres. Ela cita um dado da Organização Mundial de Saúde para essa afirmação. “Cerca de 70 milhões de pessoas sofrem com distúrbios alimentares no mundo. Cerca de 90% delas são mulheres, o que reforma o problema social e exista da idealização da beleza”.
À exemplo do que disseram Raquel e Michela, Paula também diz que não só as cobranças mas também as comparações começam cedo. Haja vista a maneira como são recriadas as princesas dos contos de fadas.
“Encontramo-nos em uma sociedade considerada patriarcal na qual a competitividade feminina impõe que seja estabelecida a temática da beleza de quem chama mais atenção, com quem se casou e assim por diante. Não se pode descartar também que a mulher é considerada o fruto do desejo, o que faz com que elas, desde muito novas, busquem a beleza como forma de sobrevivência. Elas não percebem que isso pode anular tudo o que sentem e buscam em uma vida a ser vivida por si mesmas”.
A psicóloga conta que, como mulher, já sofreu também por ter que se enquadrar em padrões socialmente exigidos. “Fiquei angustiada por ter que usar salto alto devido a determinado ambiente, quando na verdade eu só queria usar uma roupa mais significativa para mim”.
COMO SE PROTEGER?
A funcionária pública acredita que devemos pensar na educação das próximas gerações, todavia é preciso agir agora, no presente. “É a melhor ferramenta que possuímos para mudar o futuro à longo prazo. Mas devemos começar a ter orgulho de nossos corpos, rugas e cicatrizes. Somos como um livro de memórias que conta a história de nossas vidas. Isso não pode ser ignorado e nem adiado pois disso depende a vida e a saúde de muitas mulheres”.
Na opinião de Raquel, há como se proteger destes padrões aos quais obedecemos desde muito cedo. “Podemos começar a não reproduzir esse discurso de que temos que estar sempre impecáveis para sermos aceitas socialmente. Também é preciso não julgar as colegas por escolhas como não querer pintar os cabelos ou não querer emagrecer”.
Para ela a reflexão deve ir além disso. É necessário entender e aceitar que somos diferentes umas das outras e que temos que nos conhecer o suficiente para sabermos qual é a nossa própria vontade e o que é que querem que sejamos. Acredito que só assim consigamos nos libertar dessa ditadura que só gera insegurança e rivalidade feminina”.
Paula esclarece também que é preciso cuidar sempre da saúde emocional e mental. “Desta forma será possível buscar o autoconhecimento e o desenvolvimento de uma construção pessoal buscando a a satisfação de ser o que você é e como você é”.
“A mudança é de dentro para fora, é preciso sentir aquele amor que você tem por si mesma e ainda não percebeu. Ele tem brilho próprio, quando você descobrir que sua confiança é perceptível a olho nu, perceber que uma atitude altiva emana uma energia contagiante, irá ter a autoconfiança necessária para ser exatamente ‘quem quiser ser’, garante Michela.