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BELEZA: Dentro ou fora dos padrões

Em uma sociedade machista e patriarcal como a nossa, os padrões de beleza atingem principalmente as mulheres

Rara Gente - Daniela Galli
07/06/22 às 08h00

Não é de hoje que a sociedade de forma geral é levada a obedecer algumas regras de aparência estética e visual. Por trás da ideia do que pode ser considerado bonito, existe um exército de pessoas que querem se encaixar dentro dessas características. Este pode ser um caminho muito perigoso para quem está fora deste ideal. Em uma sociedade machista e patriarcal como a nossa, os padrões de beleza atingem principalmente as mulheres.

Ao longo da história da humanidade, vários tipos físicos foram valorizados em detrimento de outros. Desde corpos maiores ou mais esguios até o tamanho dos seios e do bumbum. Houve um tempo, por exemplo, que corpos esbeltos e fortes não eram considerados bonitos, uma vez que pertenciam, em sua maioria, aos trabalhadores braçais que desempenhavam atividades consideradas inferiores.

Não é possível dizer ao certo quando surgiram os chamados “padrões de beleza”, porém sabe-se que eles ganharam força desde que o homem se fixou em um só lugar e passou a viver em sociedade. Os líderes eram mais fortes, destacavam-se dos demais e se enfeitavam com garras e dentes dos animais que caçavam.

As mulheres que passavam a ocupar uma posição privilegiada, deveriam ser obesas pois este tipo de corpo, com quadris largos, representava o ideal da fertilidade. Dando um salto no tempo, a popularização dos concursos de beleza contribuiu muito para que a sociedade fomentasse o conceito do que seria considerado belo ou não.

A evolução da mídia se encarrega até hoje de mostrar quase que totalmente só homens e mulheres que fazem parte deste padrão idealizado. A possibilidade de alterar os corpos com editores de imagens e aplicação de ‘filtros’ nas redes sociais faz ainda com que todos parecem indefectíveis aos olhos dos seguidores, o que reforça mais a ideia do que é belo aos olhos da internet.

Uma pesquisa elaborada por uma marca de produtos de higiene e divulgada no ano passado mostrou que 84% das adolescentes de 13 anos já utilizam recursos para distorcer a própria imagem.

Os dados foram obtidos em dezembro de 2020 e foram entrevistadas  meninas e mulheres nos Estados Unidos, Inglaterra e no Brasil. Em nosso país participaram cerca de 500 meninas com idades entre 10 e 17 anos e mais de mil mulheres com idades entre 18 e 55 anos.

Ainda de acordo com o resultado, 35% das jovens brasileiras afirmaram que se sentem menos bonitas em comparação com as fotos de influenciadores e celebridades nas redes sociais. Aproximadamente 60% daquelas que passam entre 10 e 30 minutos editando imagens disseram que tem a auto estima baixa.

A COBRANÇA COMEÇA CEDO

Raquel Soeiro, de 32 anos, acredita que desde criança as mulheres são cobradas em relação à aparência. “Ouvimos em falas, tanto de homens quanto de mulheres, que precisamos ter cabelos longos, estar sempre muito bem vestidas e maquiadas. Do contrário, somos taxadas de ‘relaxadas’”.

Ela se lembra que, na infância, a cobrança era em relação às roupas. “Eu só poderia usar vestidos e sapatos muitas vezes desconfortáveis mas socialmente mais bonitos e que me deixavam mais feminina”.

Na adolescência as ‘exigências’ mudaram um pouco, mas não deixaram de existir; além das roupas femininas, era preciso estar sempre com as unhas feitas, como forma de autocuidado.

Para a funcionária pública Michela Moraes, de 45 anos, as mulheres, na verdade, não são ‘forçadas’ a seguir um padrão de beleza, mas sim ‘condicionadas’, sejam eles quais forem, para que elas possam se sentir inseridas em grupos. “Por carência, baixa autoestima, ou por negligenciarmos nossas próprias vontades acabamos nos ‘forçando’ seguir o que é estabelecido pela sociedade”. 


Ela conta que, não sofreu com a obesidade na infância, mas que começou a ganhar pelo durante a faculdade. “As rotinas mudaram, o tempo livre diminuiu e o peso veio. Até os meus 35 anos tinha um corpo harmônico, mas as pressões já faziam com que eu me preocupasse demasiadamente”. 


O resultado disso não foi nada fácil para ela. “Sofri gordofobia de várias formas, discreta e escancarada. Mas a maior pressão vem sempre das pessoas que mais amamos. Não é pior que as demais, mas a forma como reagimos a elas é mais dolorida”. Michela diz ainda que, durante dez anos, tomou até anfetaminas para tentar combater o excesso de peso.

Hoje, na vida adulta, Raquel afirma que não se preocupa muito com a opinião de outras pessoas mas as cobranças permanecem. “Em ambiente de trabalho fui cobrada a andar sempre de salto e o uso da maquiagem era uma obrigação para conseguir determinada vaga”.

A psicóloga Paula Lidiane Ribeiro confirma que as principais ‘vítimas’ dos padrões de beleza impostos pela sociedade são as mulheres. Ela cita um dado da Organização Mundial de Saúde para essa afirmação. “Cerca de 70 milhões de pessoas sofrem com distúrbios alimentares no mundo. Cerca de 90% delas são mulheres, o que reforma o problema social e exista da idealização da beleza”.

À exemplo do que disseram Raquel e Michela, Paula também diz que não só as cobranças mas também as comparações começam cedo. Haja vista a maneira como são recriadas as princesas dos contos de fadas.

“Encontramo-nos em uma sociedade considerada patriarcal na qual a competitividade feminina impõe que seja estabelecida a temática da beleza de quem chama mais atenção, com quem se casou e assim por diante. Não se pode descartar também que a mulher é considerada o fruto do desejo, o que faz com que elas, desde muito novas, busquem a beleza como forma de sobrevivência. Elas não percebem que isso pode anular tudo o que sentem e buscam em uma vida a ser vivida por si mesmas”.

A psicóloga conta que, como mulher, já sofreu também por ter que se enquadrar em padrões socialmente exigidos. “Fiquei angustiada por ter que usar salto alto devido a determinado ambiente, quando na verdade eu só queria usar uma roupa mais significativa para mim”.

COMO SE PROTEGER?

A funcionária pública acredita que devemos pensar na educação das próximas gerações, todavia é preciso agir agora, no presente. “É a melhor ferramenta que possuímos para mudar o futuro à longo prazo. Mas devemos começar a ter orgulho de nossos corpos, rugas e cicatrizes. Somos como um livro de memórias que conta a história de nossas vidas. Isso não pode ser ignorado e nem adiado pois disso depende a vida e a saúde de muitas mulheres”.

Na opinião de Raquel, há como se proteger destes padrões aos quais obedecemos desde muito cedo. “Podemos começar a não reproduzir esse discurso de que temos que estar sempre impecáveis para sermos aceitas socialmente. Também é preciso não julgar as colegas por escolhas como não querer pintar os cabelos ou não querer emagrecer”.

Para ela a reflexão deve ir além disso. É necessário entender e aceitar que somos diferentes umas das outras e que temos que nos conhecer o suficiente para sabermos qual é a nossa própria vontade e o que é que querem que sejamos. Acredito que só assim consigamos nos libertar dessa ditadura que só gera insegurança e rivalidade feminina”.

Paula esclarece também que é preciso cuidar sempre da saúde emocional e mental. “Desta forma será possível buscar o autoconhecimento e o desenvolvimento de uma construção pessoal buscando a a satisfação de ser o que você é e como você é”.

“A mudança é de dentro para fora, é preciso sentir aquele amor que você tem por si mesma e ainda não percebeu. Ele tem brilho próprio, quando você descobrir que sua confiança é perceptível a olho nu, perceber que uma atitude altiva emana uma energia contagiante, irá ter a autoconfiança necessária para ser exatamente ‘quem quiser ser’, garante Michela.





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