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Adoção homoafetiva: Ana e Francieli falam das suas experiências como mamães do Miguel

"Você tem amor aqui, ele existe, e nós somos uma família”. Confira o relato emocionante do casal.

Bruna Taiski
22/07/20 às 11h15
Arquivo pessoal

A palavra “mãe” tem praticamente a mesma raiz linguística em todos os idiomas do mundo e é pronunciada nos cinco continentes, com pequenas variações. Mas será que essa palavra, mais antiga que as pirâmides do Egito e tão perene quanto à própria humanidade, não foi inventada para ser usada em dupla? Será que mãe precisa ser só uma mesmo?

Ana Salton e a Francieli Maria do instagram @mãeaquitemduas  são mamães do pequeno Miguel de dois anos e nove meses. Juntas há 10 anos e casadas há cinco anos, elas optaram pela adoção após muito tempo de preparação.

Desde o início do relacionamento conversavam sobre a intenção de ter filhos, independente da forma que ele entraria na vida do casal. Após conhecerem as possibilidades foram encaminhando para a adoção, que se encaixava no que pretendiam.

“Do momento em que começamos a entender e pesquisar sobre até a adoção de fato, passaram-se dois anos. Até porque tínhamos na nossa cabeça que precisávamos de uma estabilidade financeira. Não somente no trabalho, mas um local ideal para a criança”, diz Ana.

No Brasil, há pelo menos 32 mil famílias homoafetivas formadas por duas mães (53,8% do total), segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Além de todo o amor e disposição necessários para dar uma nova família a uma criança, são exigidas documentações e etapas que incluem entrevistas, preparos psicossociais e até um "teste" que irá analisar se a criança irá se adequar à vida em família.

“Primeiro entregamos a documentação, passamos pelo GRAATA - os seis meses obrigatórios - depois nós passamos pela equipe com psicóloga e assistente social que avaliam os adotantes”, explica Ana.

Apesar de os processos burocráticos serem os mesmos, há algumas situações que casais LGBTQ’s enfrentam e os deixam receosos – o que é fruto de anos de preconceito vividos por eles. No entanto, seguras de seus direitos, lutaram em cada etapa pela linda família que hoje formam.

“A primeira vez que fomos ao clínico geral, entrei sozinha no consultório. Ao sentar vi uma bíblia em cima da mesa e já pensei 'Ele não vai me dar esse atestado' - risos - em seguida ele questionou onde estava o meu esposo e eu respondi 'Mas eu não tenho esposo, é minha esposa, no caso ela é a próxima a ser atendida. Depois a Ana entrou e foi mais tranquilo, porque eu já tinha passado por essa barreira”, relata Francieli.

“Em Três Lagoas não sofremos nenhum preconceito dentro do fórum por ser um casal homoafetivo, a equipe técnica é muito competente, são profissionais e fazem a adoção acontecer! Mas falamos pelo município, sabemos que há cidades que não são assim”, completa.

Arquivo pessoal

“A partir deste dia iniciamos nossa jornada como mães. Nossos dias se preencheram, novos desafios surgiram e novas lutas”.

Ana e Fran mudaram para um novo cantinho para receber o Miguel, decoraram o novo quarto, compraram brinquedos e ficaram ansiosas para finalmente receberem o pequeno em casa.


Conforme Francieli, toda essa preparação se assemelha ao período de gestação. “As pessoas colocam a adoção como algo muito difícil, mas não é. Todo este processo é como um pré-natal. Não é necessário ir ao médico todo mês durante a gravidez? É parecido com ir ao fórum, participar das reuniões. Já a chegada é como o chá de bebê. Nós juntamos tudo o que a criança precisa, é a mesma coisa. Mas ao invés de comprar, nós juntamos em dinheiro para fazer a poupança. Porque era muito incerto, poderia chegar uma criança de zero a cinco anos”.

Para elas a espera seria no mínimo seis meses, porém, em um mês ele chegou aos braços das mamães. “No primeiro dia em que finalmente o vimos, ele estava dormindo. Ficamos com ele uma hora. Até levamos um brinquedinho, que virou nossas tatuagens para representa-lo”, diz Ana.

Miguel nasceu para elas com um ano e seis meses no dia 25 de abril de 2019. “A partir deste dia iniciamos nossa jornada como mães. Nossos dias se preencheram, novos desafios surgiram e novas lutas”.

Nós somos uma família!

Adotar é, sem dúvidas, um ato de amor, que transforma não só a vida do adotado, mas também de quem adota. Porém, naturalmente, é um ato que carrega suas responsabilidades – e, entre as principais delas, está a necessidade de “abrir o jogo” e falar sobre a adoção com a criança. O artigo 48 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) assegura que é direito da criança que foi adotada saber sobre suas origens.


“Há pessoas que enxergam a adoção como ocorre nas novelas, como 'nossa, é uma criança adotada, nunca irei contar para ela’; é todo aquele drama. Falar a respeito da adoção é um processo que acontece desde que a criança chega. Existem formas de acordo com cada idade, alguns livrinhos mostram sobre diversas configurações de família”.


“Nós tratamos isso com naturalidade. Não é nenhum problema, ele teve uma história, o passado dele não é um problema, é tratando dessa forma que criamos vínculos e confiança”.


Além da adoção, o casal também se preparou para lidar com o preconceito. “Nós já nos preparamos há um longo tempo para saber lidar com o preconceito, tanto relacionado a dupla maternidade quanto ao fato de sermos lésbicas. É importante para casais LGBT terem noção de que o mundo não será "Ok" sempre, é importante nos prepararmos e preparar os filhos. Não vai ser bonitinho sempre. Tem pessoas que tem ódio por ódio e é isso. A gente luta a todo o momento para esse tipo de pessoa não ter espaço para falar. Mas não tapamos o sol com a peneira, mostramos a realidade e falamos a todo momento ao Miguel "você tem amor aqui, ele existe, e nós somos uma família"”.

Arquivo pessoal

O que caracteriza uma família não é simplesmente o tipo de sangue que corre nas veias, mas aquilo que é feito no dia a dia e demonstra um laço inquebrável de carinho e amor. Por isso, o casal ensina para o filho que há muitas configurações de família.

“Existem famílias com uma só mãe, um só pai, com tio, com avós. É falar da pluralidade. Caso, futuramente, ele seja atacado por um adulto nós agiremos de forma mais incisiva, mas se for uma criança na escolinha nós conversaremos com a direção para um projeto sobre as diferentes famílias que existem”, conta Ana.


“Adoção não é caridade, como muitos pensam. Decidimos adotar porque queríamos nos tornar mães por meio da adoção, construir uma família. A cada etapa vêm novos aprendizados. E aqui, onde tem duas mães, gostamos de aprender sempre”, finaliza Francieli.

Veja a live com a entrevista completa:

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