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Nosso adeus a Tia Nega

É com grande pesar que nos despedimos da Tia Nega, pessoa esta que foi reconhecida como patrimônio histórico e abrilhantou a capa da edição 33 quando nossa revista ainda se chamava Criativa

Redação  - Rara Gente
21/09/21 às 14h17

Parece impensável que uma pessoa seja tombada como Patrimônio Histórico 
de um município ou que receba um título lesgislativo como “fofa”. Ao incauto, pode até parecer mau gosto, coisa de telenovela, estilo  Odorico Paraguaçu, ou aquelas bizarrices típicas da política menor. 
Porém, quando se trata de Visitação Amâncio Veron da Motta, 76 anos, uma 
simpática morena, baixinha, conhecidíssima no mundo político e social, autora de muitas obras assistenciais, com muitos serviços públicos prestados e histórias para contar, os títulos parecem proceder. Quando lembramos que ela atende mesmo é por Tia Nega, a certeza dos merecimentos se confi rma. Esquecemos o que possivelmente fosse bizarro na situação.

Tia Nega é parte do patrimônio histórico, moral e humano de Três Lagoas, se considerarmos como patrimônio aquilo que tem valores intrínsecos, duradouros e que, por isso, merece ser preservado para deixar referências e ser lembrado pelas gerações que se sucedem. Com ela, é possível aprender lições de simplicidade, de cortesia, honestidade, trabalho e família. Além, é claro, lições políticas da melhor linhagem.
Esposa de Benedito Soares da Motta, o Madrugada, vereador por três mandatos e, ela mesma, vereadora por dois mandatos, ainda hoje é ‘consultada’ sobre questões na área, candidatos a querem em seus palanques, eleitos querem seu apoio. É que o nome Tia Nega ressoa dos anos 80 com a credibilidade 
que às vezes não se encontra. “Nunca peguei dinheiro da Câmara para comprar nada para os eleitores. Eu ajudava muito, mas tirava do meu salário. Entrei lá andando a pé e saí de lá assim, sem nenhuma bicicleta”, afirma.

Era a pé que ela ia para o Legislativo, visitava eleitores nos bairros e conta que só 
andava de carro quando ganhava carona do colega ex-vereador Germano Molinari (atual chefe de gabinete da prefeitura) ou de Sueli Carneiro, funcionária da Câmara há 24 anos. “A Tia Nega era a pacificadora da Câmara”, lembra a assessora legislativa, a quem Tia Nega considera a filha que não teve, a quem, ainda 
hoje, pede ajuda quando o assunto é texto. “Ela (Sueli) me ajudava a escrever os requerimentos e projetos, como ajuda os vereadores 
até hoje”, fala agradecida.

Entre estes momentos de pacificação estão seu posicionamento em não votar 
pela cassação de um colega. 
“Fiquei pensando na família dele, em tirar a vida política e social dele, e resolvi 
não fazer politicagem com o fato. Só falei que não ia votar e pronto”, explica de forma quase ingênua. 
Muitos colegas acabaram acompanhando sua decisão. Mesmo sem querer, pacificou o caso.
Mas Tia Nega não gosta muito desse assunto. Prefere lembrar o que foi construído. 
As pernas, acometidas por algumas doenças já não respondem bem, mas a memória raramente trai Tia Nega e ela responde quase 
que de pronto sobre as heranças que deixará. É assim que enumera, sem lapsos de memória ou dúvidas, os nomes de todos os presidentes dos bairros que trabalharam ao seu lado, quando ainda não tinha mandato, mas era a coordenadora dos trabalhos da promoção social no município, a convite da
então primeira-dama do Estado, Aparecida Pedrossian.

O projeto Panelão consistia na entrega de cinco caminhões de cestas básicas nos
bairros e, posteriormente, a clubes de mãe que abrigavam hortas comunitárias e diversos atendimentos sociais. Visitação já era a conhecida Nega do Madrugada, já havia batalhado ao lado do marido em um bar e em uma sorveteria e restaurante, o “Pinguim”.
Também tinha arregaçado as mangas com ele, chefe da cooperativa da Noroeste do Brasil, e com outros ferroviários, para construir o estádio da rede, o estádio da Aden.
Mas o trabalho no Panelão a projetou. Desta forma, apaixonada por esporte
e política, afeita a trabalhos comunitários e sem medo de ir à luta, Tia Nega enfrentou sua primeira campanha eleitoral. Antes, reuniu-
se com a família. “Pedi autorização para os meu filhos, Paulo e Eduardo, e partimos para a campanha. Naquele tempo, já precisava de dinheiro para se eleger, mas a gente contou só com os comícios e a boa vontade”, relata. Ao seu lado, uma cabo eleitoral a quem tributa a vitória, sua cunhada Vilma Rodrigues de Souza.

“A família do Madrugada é muito tradicional e conceituada na cidade, é gente
respeitada e boa, que sempre trabalhou por Três Lagoas. Minha cunhada trouxe isso para a campanha. Estas bandeiras também ajudaram muito”, fala mostrando uma foto de comício, onde tremulam tecidos com seu nome. Entretanto, Tia Nega foca o sucesso da campanha em Vilma.

Em 89, assumiu o primeiro mandato, sendo reeleita, posteriormente, para legislar
até 96. Seu primeiro projeto foi requerer a construção de uma passagem de ligação dos bairros São João e Santa Rita, na rua Marcílio Dias. Depois, vieram a feira do Jardim Alvorada e o projeto de construção de um velório público municipal, obra que gerou polêmica, à beira da Lagoa Maior, em 89. “Fomos chamados de analfabetos e loucos, mas o velório é democrático, para pobre e rico, um lugar para os humildes e até para velar aqueles que
criticaram”, avalia.

Em seus mandatos também conquistou, junto à extinta Legião Brasileira de Assis Assistência (LBA), uma obra que a imortaliza, o Centro de Convivência Tia Nega, local, que abriga atividades da Melhor Idade e leva seu nome. Desta liberação de recursos nasceu também o Centro de Educação Infantil Diva Garcia, no bairro Paranapungá. “O prefeito lembrou que criança e velho no mesmo espaço
não daria certo”, justifica. Na melhor idade, ela compartilha momentos bons com
suas colegas, esbanja vitalidade e autoestima, ajuda muitos a passar os dias com mais qualidade de vida.

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