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Mulher batalhadora e poderosa: Conheça todas as versões da Cirurgiã Plástica Suelen Melão

Ela é dona de si! Com simplicidade  Suelen Melão, fala sobre as suas origens.


Bruna Taiski em 08 de outubro de 2019 - 14h51

Uma dona de si é protagonista da sua vida - comprometida com a identificação dos seus talentos para a realização dos seus sonhos, onde aplica seus propósitos, não permitindo que os obstáculos atrapalhem a sua caminhada, impulsionada sempre pela leveza e pela força dos seus sonhos de menina. Resumindo em um parágrafo bem escrito, parece fácil, não é? Mas, não se enganem. Ser uma mulher dona de si é tarefa árdua, coisa para quem está disposta a se arriscar e se transformar, assim como fez a cirurgiã plástica, Suelen Melão.


No dia da nossa entrevista, os termômetros marcavam quase 40ºC – o sol a pino brilhava, o típico clima de setembro – Suelen nos recebeu na porta da sua casa, iluminada por meio de uma recepção tão calorosa quanto à sensação térmica; pura energia boa. Logo, uma bolinha pequenina veio ao nosso encontro também - a ‘Tequila’- segunda buldogue francês da casa; a primeira chama-se ‘Saquê’. “Por incrível que pareça eu não sou de beber muitos drinks alcóolicos!” – risos.


A sala de estar é o cenário do nosso bate-papo - tão aconchegante que parecia contar a sua história. E não estamos falando apenas dos móveis; havia personalidade em cada pequeno detalhe do lar. Arte, acessórios, livros, e até flores compartilhavam suas opiniões e pontos de vista refletindo quem ela é. “Eu me vejo como uma mulher batalhadora, que tem fé e, sem medo, corre atrás do que quer”. 


Eu me vejo como uma mulher batalhadora, que tem fé e, sem medo, corre atrás do que quer.
—  Suelen

SAPEQUICES


Em 1985, lá distante da modernidade da cidade e junto à natureza, em uma fazenda há poucos quilômetros de Cianorte, interior do Paraná, nascia uma menina levada - a primeira do casal Antônio Roberto Melão e Antônia Grecco. 


Suelen morou até os cinco anos na fazenda - o irmão mais velho, Fábio, já estava com seus doze anos de idade. As histórias de ‘sapequices’ contadas por ela, nos levam às memórias simples de uma infância gostosa. Quando pequena corria pelo pasto e ‘apartava o gado’ junto com o pai. Havia um cheiro incomparável que hoje só se encontra no frasco de suas recordações que incluem as canas de açúcar que se debruçavam na terra vermelha, ano após ano, sempre à espera. Descritas como extremamente doces, o gosto vem na boca até de quem não estava presente. “Vivia no meio dos bezerrinhos! Pense em uma criança feliz! Embora tão pequena, meu pai me colocava em cima do cavalo e eu trazia o gado de um lugar para o outro. Ele sempre me ensinou a ser determinada”. 


E como era determinada! Até hoje os pais recordam as travessuras da filha. “Eles contam que certa vez eu dei um grande susto em todos. Minha mãe me colocou no quarto para dormir e eu tranquei a porta, arrastei um sofá para perto da janela, subi, abri e pulei – isso com três anos de idade – meu pai estava roçando com o trator, eu peguei três coquinhos na mão e fui levar para ele. Como o trator ia reto, ele não olhava para dar ré; por um motivo de Deus ele olhou e, no momento que ele virou, eu estava com as mãos abertas segurando os coquinhos para dar para ele. Se ele não me visse, teria acontecido o pior. Meu pai chegou amarelo em casa, comigo no colo e minha mãe não sabia nem que eu tinha fugido”.


Aos cinco anos de idade, decidiram morar na área urbana, para ficar mais perto da escola. A mãe era professora – hoje aposentada – e exigente com os estudos; no entanto, as lembranças mais marcantes não são o ‘ABC’ ou o ‘romancezinho’ – que todos nós já vivemos – no colegial. Suelen conta do gênio forte que possuía - uma verdadeira fera.

“Na escola evitavam mexer comigo porque eu era brava; se eu arrumasse briga, tinha de resolver os meus problemas. Como minha mãe trabalhava na escola, eu tinha de dar um jeito de não transparecer nada, senão eu apanhava quando chegasse em casa ainda” – sorri.


Neste momento vocês estão se perguntando como um perfil tão delicado esconde este lado woman power? Curiosos, nós também questionamos. “Não sou muito delicada não; hoje sou um pouco mais, mas eu era bem terrível quando criança. Comecei a acalmar quando iniciei as aulas de caratê - dos oito aos doze anos; na aula eles nos ensinam a ficar mais centrados e fui melhorando um pouco essa parte. Sempre fui muito ativa; minha mãe não me deixava ficar sem fazer nada - eu fazia aulas de jazz, inglês, para não ficar parada. Ela conta que meus irmãos não deram o trabalho que eu dei”.

“Vivia no meio dos bezerrinhos! Pense em uma criança feliz! Meu pai me colocava em cima do cavalo e eu apartava o gado”.
—  Créditos do comentário

Por falar em irmãos, em 1991 nasceu Jéssica, a mais nova do trio. Hoje aos 28 anos, ela está seguindo os mesmos passos da irmã, cursando medicina em Campo Grande. “Nós brigávamos como toda criança, mas nos amávamos e nos amamos. São muitos contos; era enorme a simplicidade que nos rodeava, mas essas lembranças constituem, na verdade, nossos maiores tesouros”.


NOSSO ORGULHO


De origem humilde, os pais sempre batalharam para dar um futuro melhor aos filhos.  Essa era a prioridade. Dona Antônia os ensinou a perseverar; ela é o tipo de mãe que não está apenas na arquibancada torcendo pelos filhos, mas correndo ao lado deles. “Nunca tive nada de mão beijada; era tudo com muito custo. Estudar era bem difícil; até à oitava série eu fiz escola pública; quando foi para entrar no colegial, eu já falava que queria ser médica. Eles fizeram um esforço danado para pagar escola particular e eu conseguir ter mais chances de passar em vestibulares. Minha mãe sempre me dizia: ‘Olha filha, a gente está conseguindo fazer isso, mas com dificuldade; então você tem de aproveitar! ’”.

“Até me lembro de quando eu chegava da escola e falava toda animada: ‘Mãe, tirei 10! ’. Ela era daquelas que dizia: ‘Não fez mais que sua obrigação! ’. Era desse jeito em casa”.


Se a mãe era a voz da razão, o pai era o coração. Para ele, tão importante quanto o sucesso era a felicidade... “Meu pai já era mais tranquilo; ele nunca insistiu para eu fazer medicina – diferente da minha mãe que já empolgava e incentivava - ‘Você tem de fazer alguma coisa que a faça feliz, não importa o quê! ’ - me aconselhava”.


E a felicidade estava na medicina - especialmente na cirurgia plástica. Formar a filha e vê-la realizando um sonho com tanta dedicação foi um grande orgulho para os pais e os avós - Osilho Melão e Nair Melão.

“Meus avós eram pessoas de sítio, bem simples, que aos pouquinhos foram conquistando o seu espaço e me ajudam muito na minha caminhada. O orgulho do meu avô era falar que tinha uma neta médica. Saía falando para todo mundo; ele faleceu já faz seis anos”. 


“Ele não chegou a me ver como cirurgiã plástica, mas eu já estava formada e fazendo cirurgia geral quando ele faleceu. Minha avó está viva e forte e me ajuda até hoje se precisar; são mais que pai e mãe. São bem humildes, mas fazem de tudo para os netos; tenho uma gratidão imensa a eles, pelo esforço, de tudo”. 


Formou-se em 2010 em Criciúma, Santa Catarina, 1000 quilômetros da cidade natal. O avô - que tinha mais de 79 anos e a avó com 72 anos - não se importaram com a distância e foram ver a sua menina se formar. Suelen recorda o momento, emocionada. 


“Eu entrei na formatura com meu avô e dancei a valsa com ele, depois com o meu pai. Meus avós sempre me apoiaram em tudo. Sabe... A minha família me ensinou a ser forte; meus pais me criaram para a vida. Não para ter medo das coisas. Nunca fui totalmente protegida, digamos; sempre foi dito a mim que eu deveria trabalhar árduo para conseguir o que eu quisesse. Sou muito grata pela forma com que eles me ensinaram sobre a vida - é como eu gostaria de ensinar meus filhos”.


É PRECISO TER FÉ


Antes de fazer medicina, ela já estava decidida a trabalhar com cirurgia plástica. Namorava os ‘antes e depois’ nas revistas, livros, internet, a transformação a encantava. “Eu assisti ao médico que operou minha mãe, ele me deixou ver algumas cirurgias e fiquei maravilhada”.


Suelen cursou seis anos de Medicina na UNESC – Universidade do Extremo Sul Catarinense – fez dois anos de Cirurgia Geral no Hospital São Lucas, em Cascavel no Paraná e três anos de Cirurgia Plástica na Santa Casa de Misericórdia em São José do Rio Preto. “O caminho é longo até você se formar. Mas, se você gosta do que faz, então tem de ir atrás mesmo, por mais que leve muito tempo”.


E como essa moça do interior do Paraná veio para Três Lagoas? Ela afirma que atendia muitos pacientes três-lagoenses em Rio Preto; logo, encorajada pela chefe da Residência na Santa Casa, despertou o interesse pela Cidade das Águas. Começou a estudar sobre a cidade, ler, visitar, até decidir embarcar na nova experiência. 


“Vi que a cidade estava crescendo e se desenvolvendo bastante; havia poucos cirurgiões e nenhuma mulher cirurgiã. Lembro muito bem, no momento em que eu estava saindo da Via Rondon, na divisa, onde avistamos o rio; falei: ‘Deus, se for para ser essa cidade, o Senhor faça com que todas as portas se abram; se não for, que dê tudo errado! ’” - recorda. 

Ela completa um ano e meio na cidade, acumulando sucessos em pouco tempo e confessa: ter vindo para Três Lagoas foi uma das suas melhores decisões. “Temos de ter bastante fé e pedir para Deus nos orientar. E tudo encaminhou bem e deu certo; estou bem feliz aqui. Só o calor, não é? – risos – Na minha cidade não era tão quente. Mas, olha... Se Deus quiser, irei passar o resto dos meus anos aqui”. 


Vaidade, autoestima, amor próprio, beleza, aceitação, são temas com que sempre convive e que ela diz fazerem parte do conceito amplo de saúde, que é o bem-estar físico, mental e social. Além disso, destaca: seu propósito de vida como cirurgiã plástica é servir de ferramenta para as pessoas alcançarem este estado pleno de saúde e descobrirem a autoconfiança, antes oculta - afinal, nada traz mais felicidade e paz do que estarmos bem conosco mesmos.


“Tem muitas histórias de tanta gente que me ajudou na minha trajetória – pausa emocionada – e eu sou muito grata por tudo; espero ajudar as pessoas também. Existe a parte financeira do trabalho, mas não é só visar o dinheiro na vida. Um carinho, o jeito com que você trata as pessoas - tudo isso faz a diferença na vida de alguém. Às vezes, a pessoa está com a autoestima baixa e você a acalenta; a aconselha - e aquilo já a renova”.


“Muitos pensam que após a cirurgia, a vida irá mudar completamente. Mas, há a possibilidade da consciência da pessoa não estar bem; pode ser que ela precise mais de uma palavra, de uma conversa, do que necessariamente da própria cirurgia. Ajudá-las é um dever que eu tenho, por Deus ter permitido chegar aonde cheguei”.


AUTENTICIDADE


Ser autêntica é ser segura. Segura daquilo que se quer realizar ou concluir na vida; segura no amor e na perseverança. Não é ser sempre durona, mas ter compaixão pela situação do outro indivíduo. Autenticidade nada mais é do que a determinação ao opinar, compreender alguém, saber amar, respeitar e saber dizer não. Suelen fala abertamente sobre as suas origens, sente orgulho – apesar dos momentos difíceis – tem autenticidade, sem medo de se expressar. 


Apaixonada por animais ama estar com as cachorrinhas ‘suas filhinhas’ em casa;  fazer churrasco com os amigos e a família - quando o tempo lhe permite. “Gosto muito de música sertaneja - fui criada nesse meio, interior do Paraná – não sou muito de balada, mas onde tiver uma musiquinha sertaneja já está ótimo”.


Há pouco tempo descobriu os prazeres de viajar. Como se dedicou aos estudos e ao trabalho durante muitos anos, somente agora tem o privilégio de fazer as malas e conhecer outras culturas. “Agora que vou começar a pensar em viajar um pouco. Recentemente fui para Bariloche, na Argentina, mas tem muitos lugares que gostaria de conhecer. Pretendo ver o mundo inteiro! Quero ir para Cancun; gostaria de conhecer pelo menos uma cidade em cada continente”.


Encerramos a nossa entrevista com uma simples pergunta “O que a faz uma pessoa feliz?” A resposta é uma lição que até a Gente levará para os nossos dias. “Uma pessoa feliz? É o estado que eu estou hoje em dia; não posso caracterizar de outra forma. É estar bem profissionalmente; fazer o que ama; estar com alguém especial ao lado; com a família toda reunida - o resto é consequência. O segredo da felicidade está em aprender a enxergá-la e valorizar cada momento como se fosse único. Há tanta coisa linda que ninguém enxerga... Vivemos em um período de escassez de amor, compaixão e afeto. Então, aproveito as pessoas que me cercam e os bons momentos em que tenho a oportunidade de viver”.

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