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Há jeito seguro de abraçar na pandemia?

Não só sentimos falta de abraços como precisamos deles.

Bruna Taiski
18/06/20 às 13h26
Abraço apertado, quem sente saudade?

A necessidade de distanciamento social na pandemia fez com que algumas pessoas exercessem a criatividade para se abraçar. Há quem improvisou cortina de plástico para encostar nos avós ou até fez "traje anticovid-19" para abraçar a professora. O jornal The New York Times listou dicas para quem deseja se envolver nos braços do outro, sugerindo desde prender a respiração até cronometrar o tempo de carinho. Mas será que mesmo com todas essas regras e parafernálias há risco de exposição ao vírus?

Não só sentimos falta de abraços como precisamos deles. O afeto físico reduz o estresse e acalma nosso sistema nervoso simpático, que, em momentos de preocupação, libera hormônios do estresse que são prejudiciais ao corpo. Uma série de estudos apontou que o simples ato de dar as mãos a um ente querido reduziu o sofrimento de um choque elétrico.

"Os seres humanos têm caminhos cerebrais dedicados especificamente à detecção do toque afetuoso, que é a maneira como nosso sistema biológico se comunica com outro para dizer que estamos seguros, que somos amados e que não estamos sozinhos", afirmou Johannes Eichstaedt, cientista social computacional e professor de psicologia da Universidade Stanford.

Para saber qual é a maneira mais segura de dar um abraço durante um surto viral, o The New York Times perguntou a Linsey Marr, cientista em aerossol da Virginia Tech e um dos principais especialistas mundiais em transmissão de doenças aéreas, sobre o risco de exposição viral durante um abraço. Com base em modelos matemáticos de um estudo realizado em Hong Kong que mostra como os vírus respiratórios viajam durante um contato próximo, Marr calculou que o risco de exposição durante um breve abraço pode ser surpreendentemente baixo – mesmo que você abraçasse uma pessoa que não sabia que estava infectada e acabou tossindo.

Aqui está o porquê. Não sabemos a dose exata necessária para o novo coronavírus deixá-lo doente, mas as estimativas variam de duzentas a mil cópias do vírus. Uma tosse média pode expelir de cinco mil a dez mil vírus, mas a maioria dos respingos cai no chão ou em superfícies próximas. Quando as pessoas estão em contato próximo, normalmente apenas dois por cento do líquido da tosse – ou cerca de cem a duzentos vírus – são inalados ou respingam em outra pessoa. Mas apenas um por cento dessas partículas – apenas um ou dois vírus – na verdade será infeccioso

Aquele abraço!

Aqui estão os prós e contras do abraço, com base nos conselhos de Marr e de outros especialistas:


NÃO abrace olhando um para a outra pessoa

"Essa é a posição de maior risco, porque os rostos estão muito próximos. Quando a pessoa mais baixa olha para cima, sua respiração exalada, devido ao calor e à leveza, migra para a área de respiração da pessoa mais alta. Se a pessoa mais alta olhar para baixo, existe a chance de que as respirações se misturem", disse Marr.

NÃO abrace encostando as bochechas, com os rostos apontando para a mesma direção

Essa posição, na qual os dois rostos apontam para a mesma direção, também é mais arriscada, pois o ar exalado de cada pessoa está na área de respiração da outra pessoa.

ABRACE com os rostos apontando para direções opostas

Para um abraço seguro e de corpo inteiro, cada um deve apontar o rosto para uma direção oposta, impedindo, assim, que um respire diretamente as partículas exaladas pelo outro. Usem máscara.

Deixe que as crianças o abracem nos joelhos ou na cintura

Abraçar na altura do joelho ou da cintura reduz o risco de exposição direta a gotículas e a aerossóis, porque um rosto fica distante do outro. Existe a chance de que o rosto e a máscara da criança contaminem as roupas do adulto, por isso considere a possibilidade de trocar de roupa e lavar as mãos após uma visita durante a qual você abraçou alguém. O adulto também deve apontar o rosto para o outro lado para não respirar sobre a criança.

Beije seu neto na nuca

Nesse cenário, os avós se expõem minimamente à respiração da criança. A criança pode ser exposta à respiração da pessoa mais alta, portanto beije usando máscara. Julian Tang, virologista e professor associado da Universidade de Leicester, na Inglaterra, que estuda como os vírus respiratórios viajam pelo ar, disse que acrescentaria mais uma precaução a um abraço em tempos de pandemia: prenda a respiração.

"A maioria dos abraços dura menos de dez segundos, de modo que as pessoas devem conseguir fazer isso. Em seguida, afaste-se pelo menos dois metros antes de falar novamente, permitindo, dessa maneira, que o fôlego seja recuperado a uma distância segura. Prender a respiração impede que você exale qualquer vírus para a área de respiração da outra pessoa, caso você esteja infectado e não saiba – e impede que você inale qualquer vírus dela, caso ela esteja infectada e não saiba", explicou Tang.

Yuguo Li, professor de engenharia da Universidade de Hong Kong e autor sênior do artigo que Marr citou para fazer os cálculos, comentou que o abraço provavelmente representa menos risco do que uma longa conversa cara a cara: "O tempo de exposição é curto, ao contrário de uma conversa, que pode durar o tempo que quisermos. Mas nada de beijo na bochecha."

Li disse que o risco de exposição viral pode ser maior no início do abraço, quando duas pessoas se aproximam e podem respirar o ar uma da outra, e no fim, quando se separam. Usar máscara é importante, bem como lavar as mãos, porque há um baixo risco de pegar o vírus das mãos, da pele ou da roupa de outra pessoa.

Marr observou que, como o risco de um abraço rápido com tais medidas de precaução é muito baixo, mas não inexistente, as pessoas devem escolher seus abraços com sabedoria. "Eu abraçaria amigos íntimos, mas não daria abraços casuais. Adotaria a abordagem de Marie Kondo: o abraço deve despertar alegria."


Com informações The New York Times.

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