É bastante provável que você tenha sido bombardeada, centenas de vezes, pela palavra feminismo no último ano. O termo apareceu na TV, na web, nas discussões eleitorais, nas campanhas contra o assédio no Carnaval... Independentemente do posicionamento e de concordar ou não com os movimentos políticos e sociais, para argumentar ou debater é preciso se aprofundar no assunto e, principalmente, entender a diferença entre feminismo e femismo.
Não é sobre o ódio aos homens, queimar sutiãs, ou não se depilar. O feminismo é um movimento político que luta pelo fim da dominação de um gênero sobre outro; questiona o papel da mulher na sociedade e procura promover a equidade entre os sexos. O machismo ainda é uma questão muito atual - e triste - no Brasil e em países de culturas diferentes. Lembra-se da Malala Yousafzai? Desde os 15 anos ela luta para que as garotas paquistanesas possam – pasme - ir à escola. E, por isso, levou um tiro na cabeça.
Feminismo X Femismo
Em tempos de internet e muito textão no Facebook, os termos “feminismo”, “femismo” e “machismo” são facilmente encontrados em qualquer comentário que ultrapasse três linhas. Mas, estariam essas expressões sendo usadas corretamente?
Conforme Rayanne Silva - graduada em ciências sociais, feminista e ativista pelas causas étnicas, de gênero e classe - o feminismo acredita na possibilidade de uma sociedade baseada na igualdade política, social e econômica entre os sexos; o femismo, por sua vez, trata-se de uma ideologia de superioridade da mulher sobre o homem. “O femismo, assim como o machismo, prega a construção de uma sociedade hierarquizada a partir do gênero sexual; baseada em um regime matriarcal” - pontua.
Facilitando as definições, a palavra “femismo” é usada; porém, o femismo, em si, não existe. Falando “femismo”, a pessoa se refere à ideia do misandrismo. Ele, sim, é algo classificado e reconhecido. Com origem da palavra grega “misosandrosia”, significa ódio (misos) aos homens (andros). Dessa forma, é o repúdio patológico do gênero masculino, com a crença da inferioridade dos homens e que as mulheres deveriam ser superiores aos mesmos. A misandria, sim, é o contrário do machismo; não o feminismo.
Questão humanitária
Mas, nem tudo são flores na chamada Primavera das Mulheres: ao mesmo tempo em que vivenciamos um momento de debates e reivindicações, percebe-se uma verdadeira aversão ao feminismo ganhando força; principalmente, quando posicionamento político é colocado em pauta. O que poucos sabem é que não é preciso ‘tomar lado’ para ser feminista ou entender que existem problemáticas de gênero na sociedade.
“Costumo dizer que, apoiar as causas das mulheres - por igualdade de direitos, por diminuição dos índices de feminicídio e tantas outras violências que nos cercam - é uma questão humanitária; o que extrapola as linhas políticas” - diz a cientista social.
Uma das bandeiras comuns é a busca por aumentar a participação das mulheres na política e nos cargos eletivos. Outra, é a preocupação com a educação - vista como essencial para o enfrentamento da violência, para a melhoria das condições de vida e da consciência sobre seus direitos e espaços.
O Brasil tem hoje 147,3 milhões de eleitores registrados. Destes, 52,5% são mulheres. Os números, no entanto, não se refletem na disputa pelos votos. “Tivemos um aumento no número de parlamentares do sexo feminino; porém, tratando-se de uma nação com maioria de mulheres, esses números ainda são baixos”.
“Além disso, sofremos com a pressão estética - onde precisamos seguir o padrão de beleza estabelecido. As mulheres ganham salários inferiores aos homens, vivem à sombra da violência doméstica e sexual; assim como, são as responsáveis por criarem os filhos numa sociedade em que o abandono parental é alarmante”.
Atualmente, a luta do feminismo não é só por igualdade de direitos entre homens e mulheres; mas, entre todos os seres humanos, respeitando cada uma de suas características. Essa é a nossa nova luta das mulheres.
Desconstruindo boatos
Ainda que o feminismo não seja um movimento recente, dúvidas e muitos mitos cercam o assunto. Vamos aos esclarecimentos:
1. Feministas odeiam homens
Ao contrário deste pensamento, muitas são casadas, namoram e levam uma vida normal; afinal, exigir direitos iguais não é nada absurdo.
As feministas defendem causas como: salários iguais; direito de ocupar os mesmos cargos nas empresas; esposas poderem trabalhar. As mulheres que têm aversão ou ódio ao sexo masculino são chamadas de misândricas – como dito anteriormente.
2. Donas de casa não podem ser feministas
De acordo com o feminismo, a mulher pode ser exatamente o que ela quiser - e isso significa que ela não vai ser mais ou menos feminista se estiver fazendo as tarefas de casa. Algumas mulheres preferem dar mais atenção à casa e aos filhos; mas, isso deve ser uma escolha delas - não uma imposição masculina.
3. Não são vaidosas
O feminismo se baseia, fundamentalmente, em dar escolhas às mulheres - não sobre encontrar novas maneiras de limitar sua autoexpressão; logo, se as mulheres decidem usar rímel, batom, se depilar - nada as impede de ser assim. O importante é se sentir bem.
4. É preciso ser ativista
Apenas o fato de concordar com as ideias da causa e praticá-las são consideráveis. Mas, não... Não é preciso estar nas ruas para provar isso.
“Vivemos em um país marcado pelo assédio; pelos altos índices de estupro e por uma das maiores taxas em desigualdade de oportunidades para homens e mulheres; portanto, não precisa ser especialista no assunto para entender que, ser mulher no Brasil é um ato diário de resistência”.