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Por onde anda a raiz do folclore?

Pesquisamos se a sociedade está desvalorizando a história regional

Tatiane Simon
22/08/20 às 16h00

Responda rápido: qual é o primeiro pensamento que tem ao ouvir a palavra “folclore”? Foi algo relacionado às lendas, cantigas ou personagens típicos? A palavra folclore significa – em sua origem inglesa – o ato de ensinar (lore) um conjunto de costumes, lendas e manifestações artísticas do povo (folk) preservado pela tradição oral.

Mais uma pergunta: Preservamos essa tal tradição oral ou só lembramos sobre o tema no mês de agosto? As crianças aprendem sobre nossa cultura ao longo de sua formação infantil nas escolas? Questionamos esse assunto ao professor de História, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) Campus de Três Lagoas, Victor Wagner Neto de Oliveira, que acredita na importância em ser levado esse tema às salas de aula ao longo de toda a infância.

“Valorizar essas expressões da cultura popular é valorizar a história local. Por isso é importante, sim, que essas expressões estejam em sala de aula do ensino básico, desde os primeiros anos; que estejam, na formação da criança em família e não somente em um dia do ano”, pontua. Segundo Oliveira, as lendas, mitos e contos são parte constitutiva da sociedade e construída pela mesma sociedade. “Da mesma forma, manifestações da religiosidade popular, de festas, danças, cantigas e mesmo o fazer-se manual de artesãos, de oleiros, por exemplo, podem ser considerados ‘folclore’ se entendemos essa denominação como uma manifestação da cultura herdada de uma tradição”, explica.

À imprensa, o professor de Cultura Popular e Etnomusicologia do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), Campos São Paulo, Alberto Ikeda, declarou que “trabalhar o assunto apenas em agosto se tornou uma tradição no ensino brasileiro”. De acordo com o pesquisador, uma primeira providência essencial diz respeito à compreensão da noção de folclore que, para ele, o conceito é muito mais dinâmico do que parece: envolve diversas vertentes da cultura popular (música, dança, relatos orais, etc.) e continua sendo produzido até hoje.

Na avaliação de Vitor, a importância cultural e social que o folclore possui é a valorização da identidade de uma comunidade. “Nas sociedades de forte tradição oral, como as indígenas, a pessoa mais velha tem um lugar de destaque e respeito; e um dos atributos é justamente a transmissão da experiência, da herança cultural, via narrativa oral bastante centrada nas lendas e mitos. Ser narrador é um lugar de destaque e respeito. No Brasil rural, como também em outras sociedades ocidentais, contar histórias era próprio dos anciãos e tinha, igualmente, uma função pedagógica à criança ouvinte: de que os mais velhos tinham uma sabedoria que deveria ser respeitada; preservada. Devemos retomar isso no cotidiano, não como forma de reforçar uma ordem opressora e mítica, mas sim como forma pedagógica de ensinar e aprender a ouvir. Retomar essa prática é fundamental na sociedade contemporânea em que vivemos, onde o velho (objetos, ideias e pessoas) é descartado como empecilho. Portanto, as lendas, mitos e contos de Três Lagoas ou de outros lugares – mas que aqui ganharam significados diferentes e narrativas diversas – são importantes porque valorizam as pessoas comuns”, finaliza.

Estimular os estudantes a pesquisarem sobre suas próprias comunidades e até mesmo sobre hábitos familiares pode ser um ótimo ponto de partida para o ensino da noção de folclore. Uma forma eficiente de trazer essas questões para a sala de aula é contar que o conjunto desse costume determina os aspectos culturais de um povo.

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