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SHHHH! Consequências sociais e emocionais do hábito de disseminar boatos

Psicólogo explica os motivos e prejuízos desse hábito

Beatriz Rodas
15/05/18 às 15h30

As pessoas não gostam que omitam e espalhem boatos a seu respeito, mas omitem e espalham boatos a respeito de outrem. Primeiro ponto. A partir dessa contraposição de fatos e algumas reflexões, nasceram indagações acerca de como surgem as notícias falsas; por que se espalham tão facilmente e quais são os prejuízos que elas deixam para as pessoas – a nível psicológico, enquanto seres individuais - e social, na convivência como um todo. Você também já se fez essas perguntas ou se pegou pensando nesse hábito cultural? Adiantamos: boatos parecem simples e rotineiros, mas têm poder destruidor.

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Pós-verdade

Vivemos a Era em que os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais. Em palavras mais simples, o que agrada os ouvidos e o ego vem antes da verdade, propriamente dita. Essa é denominada a Era do Pós-verdade. Segundo o psicólogo Sidnei Muniz, “são vários fatores que envolvem as questões de mentiras e notícias falsas. Por via de regra, ganham vulto e acabam se propagando porque vivemos um momento, socialmente falando, em que as pessoas sentem muitos medos, inseguranças, ansiedade... Um período de muitas incertezas”.

Raciocínio de Conveniência

“Digamos que eu tenha determinada opinião sobre um fato, pessoa ou situação. Quando recebo uma notícia em relação àquilo que confirma o que estou pensando, vem corroborar e reforçar a linha de pensamento que tenho sobre esse determinado fato, pessoa ou situação – entra em concordância. E isso, de certa forma, alimenta em mim uma segurança, ainda que não seja verdade. Tira-me de um nível de insegurança e medo através da confirmação do meu raciocínio e isso leva as pessoas a espalharem o que ouvem e lhes convêm, sem parar para avaliar ou ter senso crítico. É uma deficiência social”.

A narração acima é utilizada por Muniz a fim de exemplificar o que é o Raciocínio de Conveniência - um dos pilares da Psicologia na abordagem sobre esse hábito social e cultural de disseminar notícias, boatos e informações - ainda que inverdades. É a famosa “mentira que dá segurança”; assegura uma ideia já existente dentro do ser e não o tira de sua zona de conforto, da crença naquilo que já tinha. De um ponto de vista racional, é muito mais cômodo seguir numa linha de raciocínio do que mudá-lo após sua negação.

Raciocínio crítico: qualidade ou deficiência?

O psicólogo afirma que “a falta de raciocínio crítico é uma deficiência cultural e educacional, porque desde o período escolar as pessoas não são influenciadas a ter um pensamento crítico; não aprendem a desenvolver o raciocínio crítico e, essa falta de influência gera uma deficiência que atinge a sociedade como um todo”.

Realismo Ingênuo

Esse é o segundo pilar que a Psicologia aborda para tratar da disseminação de notícias falsas. É o conhecimento racional, mas não empírico. As hipóteses e crenças - sem fatos ou comprovações. Nesse aspecto, Sidnei exemplifica com a seguinte situação: “Eu tenho as minhas crenças, as minhas certezas, sem avaliar se essas certezas são ou não uma verdade. Mas, eu acredito que sejam verdades - e é isso que importa. É uma realidade que eu construo dentro de mim. Não parei para estudar, apurar ou ter um raciocínio crítico sobre essas certezas. Mas, eu acredito e pronto”.

É importante ter convicções, objetivos e hábitos. Mas, é perigoso tê-los sem apuração. Sem saber se são, na prática, reais e aplicáveis; ou apenas agradam aos nossos costumes, jeito e criação. Colocar a verdade antes da comodidade é importantíssimo para que notícias e informações falsas não sejam disseminadas e, consequentemente, não prejudiquem pessoas – e nem a você mesmo; afinal, saúde emocional é um grande pilar de sustentação para a vida.

Pode levar à morte

Quando o assunto diz respeito às consequências desta disseminação de notícias falsas, Sidnei cita um exemplo prático e fatal que aconteceu em Guarujá, São Paulo, com a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos. Segundo a família, ela foi agredida a partir de um boato publicado por uma página em uma rede social que afirmava que Fabiane sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia negra. Mas, a página se confundiu ao colocar a foto da dona de casa em seu perfil; ainda que houvesse semelhança física, essa não serviria de certeza para apontar o crime.

A agressão foi cometida em 2014; o caso viralizou na época e gerou revolta em redes sociais e protestos públicos. O marido de Fabiane contou a um portal de notícias que “tudo começou com um boato na internet. Eles colocaram a foto de uma pessoa parecida e todo mundo achou que era ela. Quando ela voltou para o bairro, cercaram-na e começaram as agressões”.

A família da dona de casa terá de conviver com a perda - um dano irreparável - para o resto de seus dias. Sidnei emprestou este exemplo para explicar que as consequências - os prejuízos das notícias falsas - podem ser irreparáveis - como o ‘Caso Fabiane’. Ansiedade, estresse, depressão, transtornos... São apenas a ponta do iceberg. Há conteúdos e informações de teor extremamente prejudicial à vida social, emocional, familiar e profissional das pessoas. Saber de casos como os de Fabiane, ou o abordado na série “13 Reasons Why” – em que a menina comete suicídio após sofrer bullying frequentemente – comprovam que “fofocar” vai muito além de um mau hábito cultural.

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