Essa é uma situação não muito incomum: um profissional é contratado por seu currículo e repertório, mas em algum tempo acaba sendo demitido por questões comportamentais que estão influenciando seus resultados ou sua relação com os colegas. Estima-se que cerca de 87% das demissões feitas em empresas têm causas comportamentais. As razões desses desequilíbrios são muitas vezes negligenciadas pelo empregado e pela empresa até terem efeitos mais significativos. É difícil, para o profissional, perceber sozinho esses problemas e corrigi-los.
A psicóloga ocupacional Edilene de F. Camargo ressalta como é comum encontramos profissionais com grandes competências técnicas, mas com grande dificuldade em se relacionar com sua equipe. “Apresentam atitudes ríspidas, comunicação violenta e, portanto, acabam se demitindo com estes comportamentos. Afinal, as empresas buscam não apenas o saber fazer, mas saber conviver”.
Ela também define a inteligência emocional como a habilidade de gerenciar as próprias emoções e também daqueles que estão ao redor. “Segundo Daniel Goleman, pai da teoria da inteligência emocional, a pessoa que a possui terá emoções, mas saberá como conduzir para não as manifestar de forma inadequada. Ou seja, estou com raiva de alguém, mas sou capaz de gerenciar esta emoção para não sair por aí gritando, sendo ríspida com a pessoa em questão ou até outros que não estão inseridos no problema”, assinala a profissional.
A administração do dia-a-dia do mercado de trabalho requer inteligência emocional e, principalmente, muito foco. Entre os problemas que impedem a ascensão e a evolução dentro do ambiente profissional estão a impaciência, trazer problemas pessoais para o trabalho, procrastinação, autossabotagem, inabilidades sociais e intolerância com os colegas, além de má gestão de estresse no geral.
Outro fator para a ineficiência do profissional pode ser a má relação consigo mesmo, com seus objetivos e com o próprio tempo. Nesse caso, a procrastinação passa a ser um problema preocupante, a pessoa começa a ver empecilhos para realizar suas tarefas, algo que na realidade tem razões mais complexas por trás.
Também acaba crendo que não é competente o suficiente para evoluir ou ultrapassar desafios. Esses dois fatores estão intimamente ligados com a autossabotagem, uma forma de boicote a si mesmo, algo que hoje é temática de muita discussão entre terapeutas e gestores, porque tem diversas causas.
"ENTRE OS PROBLEMAS QUE IMPEDEM A ASCENSÃO E A EVOLUÇÃO DENTRO DO AMBIENTE PROFISSIONAL ESTÃO A IMPACIÊNCIA, TRAZER PROBLEMAS PESSOAIS PARA O TRABALHO, PROCRASTINAÇÃO E AUTOSSABOTAGEM, INABILIDADES SOCIAIS E INTOLERÂNCIA COM OS COLEGAS, ALÉM DE MÁ GESTÃO DE ESTRESSE, NO GERAL."
Para a empresa, esses processos geram muitos gastos e desprendimento de recursos para demissão e admissão de pessoal, além de comprometer a dinâmica da equipe. Para o profissional, porém, também há grandes problemas, já que um histórico de demissões por questões de comportamento pode afetar a autoestima profissional e gerar muita instabilidade e frustração dentro de suas metas de vida. Como, então, identificar esses problemas antes que eles gerem situações mais complexas?
BUSCANDO O AUTOCONHECIMENTO ANTES QUE O PROBLEMA APAREÇA:
Mesmo que você se considere um profissional que está indo bem na administração emocional do trabalho, é sempre bom analisar os fatores estressantes do seu cotidiano, e como você está lidando com eles. Agir de forma precavida, procurando o autoaperfeiçoamento, é uma forma de sair na frente e evitar que hajam transtornos. Edilene sugere algumas perguntas para se fazer, a fim de buscar essa consciência:
“Tenho tido problemas de relacionamento? As pessoas têm reclamado da forma que eu as trato? Tomo atitudes impulsivas e depois me arrependo? Falo o que penso sem filtrar, pois sou verdadeiro, mas acabo machucando os outros? Estou sendo demitido dos empregos e não sei exatamente o porquê?”.
Comece com uma autoanálise, aponte as coisas dentro da sua rotina que geram gatilhos de ansiedade, desmotivação ou mesmo irritação. Após identificar esses momentos em que há desconforto, procure manter a calma; não leve as cobranças para o lado pessoal ou mesmo tente compreender as diferenças que existem entre você e seus colegas. Trazer discernimento para cada sentimento é essencial, já que evita que você tome atitudes inconscientes baseadas na emoção.
Outra etapa importante do autoconhecimento é compreender que todos têm suas limitações e dificuldades, e identificar as suas. Se você tiver ansiedade com prazos pode ser que haja uma dificuldade dentro da sua rotina de encontrar estratégias para administrar seu tempo. Assim, você pode começar a se informar sobre técnicas para superar suas adversidades, apoiando-se em livros e conteúdos na internet, por exemplo.
"TRAZER DISCERNIMENTO PARA CADA SENTIMENTO É ESSENCIAL, JÁ QUE EVITA QUE VOCÊ TOME ATITUDES INCONSCIENTES BASEADAS NA EMOÇÃO. OUTRA ETAPA IMPORTANTE DO AUTOCONHECIMENTO É COMPREENDER QUE TODOS TÊM SUAS LIMITAÇÕES E DIFICULDADES, E IDENTIFICAR AS SUAS”.
Se seu problema for com as relações, busque informação sobre como ser mais colaborativo, respeitoso e como inspirar as pessoas. Esse tipo de análise também pode apontar se você necessita de ajuda externa, como terapeutas ou da sua rede de apoio, para refletir e construir um lugar mental mais calmo e focado.
A psicóloga dá dicas de como encarar os problemas relacionais no ambiente de trabalho: “Uma das formas de utilizarmos a inteligência emocional no trabalho é ser mais empático. Isto é, julgar menos, se colocar mais no lugar do outro de forma autêntica, respeitar as outras pessoas, não querer que todos sejam e ajam como você. Entender o ponto de vista do outro não significa que eu acato tudo o que ele diz, mas que sei manter o equilíbrio e entender que pode ser diferente de mim”.
Por fim, uma questão que deve ser analisada com cuidado é: você está com seus objetivos em dia, e eles estão apoiados com um senso de valor próprio? É importante perceber que além de ter metas concretas e realistas, é necessário acreditar nas suas capacidades para alcança-las. Dessa forma, você desenvolve uma paciência consigo e trabalha diariamente a sua adaptabilidade. Procure identificar as crenças que impedem sua mente de trabalhar a seu favor e substitua a sabotagem por um olhar crítico para as suas lacunas de conhecimento e defeitos, tal qual uma valorização dos seus pontos fortes.
Os objetivos são um combustível não só para produzir, mas também para se reinventar. Enquanto gestor, é possível abrir espaço de diálogo para dar suporte aos empregados no processo de autoconhecimento, estimulando a percepção dessas questões de forma respeitosa.
CRÍTICAS E ADVERTÊNCIAS: COMO LIDAR?
Se você já está lidando com críticas quanto ao seu comportamento no ambiente de trabalho, pode ser uma situação um tanto difícil e estressante. Investigue o que elas provocam a nível de sensação: negação, vergonha, frustração, reatividade, etc. São sentimentos totalmente normais e que podem ser trabalhados, para que não gerem condutas mais prejudiciais.
Tenha em mente, porém, que essas críticas podem ser uma oportunidade de enxergar suas atitudes por uma lente externa e entender o impacto que elas têm nos outros e na sua eficiência. Seja proativo com essa situação: uma simples pergunta como “no que posso melhorar? ”, já é um caminho para não somente procurar soluções, mas também se conectar com as outras pessoas e demonstrar seu interesse em colaborar.
Por outro lado, procure não se definir pelas adversidades, entenda que o emocional humano é dinâmico, cheio de camadas, e que um erro pode ser convertido num aprendizado para não ser cometido novamente. Desenvolver inteligência emocional pode ser um processo complicado, mas é necessário encará-lo de frente para que haja espaço para a realização profissional. Superar esses desafios é um caminho não só de correção dos erros, mas principalmente de potencialização dos seus pontos fortes.
"UMAS DAS FORMAS DE UTILIZARMOS A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL NO TRABALHO É SER MAIS EMPÁTICO. ISTO É, JULGAR MENOS, SE COLOCAR MAIS NO LUGAR DO OUTRO DE FORMA AUTÊNTICA, RESPEITAR AS OUTRAS PESSOAS, NÃO QUERER QUE TODOS SEJAM E AJAM COMO VOCÊ"
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