A simplicidade é uma virtude maravilhosa e não tão comum quanto deveria ser. É um desses atributos que enfeitam qualquer um; alguns a definem como “a celebração do pequeno”. Em outras palavras, quem é simples se mostra capaz de apreciar as pequenas coisas e, também, agradece por elas. Sara Mota de Vasconcelos mostra que uma vida simples não significa uma vida sem luxo ou sem graça; ela vive, ama, abraça, ri e até samba! Porque vida simples de verdade é saber valorizar tudo ao seu redor - todos os detalhes – inclusive, a própria história.
Escolhemos uma tarde – não propositalmente – chuvosa para a entrevista; ela chegou do trabalho, retirou os sapatos – mantendo a postura como se ainda estivesse com scarpins nos pés – e nos convidou para sentar no sofá da sala. ‘Quem é Sara Mota?’. Ela responde: “Uma mulher de fibra, cheia de energia...”. A emoção surgiu antes de começar a falar sobre sua trajetória; mas, tudo bem, a Gente ajuda a contar.
MINHA TERRA
No interior de Tocantins, na cidadezinha de Miracema, nascia a segunda filha de Hildebrando de Melo Mota e Luzenilde Coelho Mota; inicialmente nomeada ‘Mara’ – que, em seguida, tornou-se ‘Sara’ - a única mulher entre seus três irmãos: Mario, Madson e Murillo. “Meus pais cresceram juntos, se casaram e foram construindo seu patrimônio com muita força e muito trabalho. São exemplos”.
Dona Luzenilde, amorosa e ‘linha dura’ - como várias outras mães - ensinou aos filhos o poder da responsabilidade com as tarefas domésticas. Sair para passear? Só depois de ver a pia brilhando e a cama arrumada! Uma memória tão comum a todos nós, mas que Sara guarda com carinho. "Na minha adolescência a gente se reunia na porta de casa; mas, para isso acontecer eu tinha de deixar a cozinha impecável. Meus amigos iam todos lá para casa me ajudar. ‘Sarinha, a gente veio aqui ajudar a enxugar a louça para você sair logo’; e minha mãe morria de rir”.
Automaticamente, um sorriso estampa seu rosto; é... A nostalgia muitas vezes faz bem porque é sempre uma lembrança oportuna de quem realmente somos e de onde realmente viemos.
Ela sempre foi muito próxima dos pais; criada em um berço de muito amor; com mãe confidente, protetora e um pai amigo, companheiro e orgulhoso... Que não está mais aqui na Terra, mas permanece no coração da família.
“Meu pai faleceu há sete anos. Ele veio passar um feriado em Três Lagoas e adoeceu. Ele ficou vivo uma semana; em seguida, foi para Goiânia. Passou mal – estava com dissecção da aorta – e faleceu. Os médicos não sabem como e porque ele ficou uma semana vivo... Mas, a gente sabe... Meu pai não ia fazer isso comigo; morrer em minha casa”.
Já dizia a música ‘Pais e Filhos’ do ‘Legião Urbana’: ‘É preciso amar, as pessoas como se não houvesse amanhã’. E Sara ama - independentemente de qualquer distância. Para ela, essa saudade não remete à falta ou ausência; pelo contrário - a saudade é um sentimento cheio de zelo, que pode ser a melhor forma de manter viva a memória de pessoas que já se foram.
CESTAS DE JAMBO
“Minha história com o Flávio é linda, viu?” – diz, com brilho nos olhos ao falar de seu companheiro de toda vida. Sara e Flávio Coelho de Vasconcelos se conhecem desde crianças; os pais eram amigos e, por isso, passavam as férias todos juntos. “O Flavinho era danado; se ele souber que eu estou contando... Lembro-me como se fosse hoje; ele pegava jambo, na fazenda do pai dele e levava lá em casa; chegava com uma cesta da fruta” – recorda-se.
O tempo passou e ela foi estudar em Goiânia com os irmãos. Flávio terminava a pós-graduação e voltou para cidade onde os pais moravam para fazer um curso. Até que o destino fez questão de fortalecer - o que era apenas uma paquera de infância.
“Recebi uma ligação dele, me chamando para tomar um suco. Disse que eu não poderia porque ia levar minha afilhada ao circo. Dois minutos depois ele me ligou novamente: ‘Estou aqui pensando, sem fazer nada; vou ao circo com vocês!’. Desse circo para cá a gente nunca mais se desgrudou”.
O noivado foi em Guaraí - uma surpresa combinada entre genro e sogra. Luzenilde preparou a mesa de jantar com toalha de linho e decorou com todo capricho; Sara não suspeitou. “Minha mãe pelejou para eu me arrumar; eu estava morta de cansaço e ela insistia para eu colocar uma roupinha melhor. Teimosa que sou...Noivei de chinelo." - ela ri da recordação.Confira a matéria completa na Edição 86 da Revista Rara Gente na Banca Digital!