Num contexto global marcado por instabilidade política, fadiga digital e ansiedade em relação às alterações climáticas, o relatório The Future 100, da VML, identifica uma mudança estrutural no comportamento de consumidores, marcas e instituições. O principal achado desta 12ª edição do estudo anual é um conceito cunhado pela própria consultoria: o “disotimismo”, uma perspectiva moldada pelos desafios globais generalizados, mas sem que se ceda ao pessimismo.
A pesquisa, que ouviu 15.639 pessoas em 16 países entre setembro e novembro de 2025, além de 60 especialistas globais, descreve 2026 como o ano da recalibração: menos excesso, mais intenção; menos escala global, mais significado local. O que emerge é um retrato de consumidor exausto de negatividade, mas que encontra na própria disrupção um catalisador para mudança.
Distopismo: entre o caos e a esperança
Emma Chiu e Marie Stafford, diretoras globais da VML Intelligence e coautoras do relatório, explicam que o conceito destaca uma realidade específica: enquanto sistemas antigos desmoronam, indivíduos e comunidades constroem soluções centradas no ser humano. “Trata-se de projetar um futuro melhor, não apenas desejar o passado”, afirmam.
Diante da incerteza, os consumidores passaram a procurar experiências e produtos que ofereçam “alegria e conexão”, em vez de escapismo. Longe da obsessão com a hiper-inovação contínua da última década, o documento descreve 2026 como um período de ajuste de valores.
Em um mundo cansado de promessas grandiosas, o futuro será construído a partir de pequenas escolhas, mais lentas e conscientes, e não de grandes transformações.
Três eixos principais do comportamento em 2026
1. Busca por iluminação e alegria
Exaustas com a negatividade constante, a maioria das pessoas diz sentir-se atraída por experiências que “elevam o espírito”, inspiram e ampliam a visão de mundo. Segundo o relatório, 86% dos respondentes querem experiências que inspirem admiração ou renovem sua visão de mundo. Viagens, bem-estar, cultura e varejo viram catalisadores de crescimento pessoal.
2. IA como colaboradora, não ferramenta
A inteligência artificial deixa de ser novidade para se tornar parte integrante do dia a dia. Em 2026, a questão já não é “o que a IA pode fazer”, mas quem a controla e como ela é regulada. Surge assim uma procura por sistemas de IA mais transparentes, personalizados e éticos, bem como por produtos que combinem automação com toque humano, sobretudo em áreas como educação, saúde e criação criativa.
3. Conexão humana permanece inegociável
Mesmo com realidades digitais e físicas se fundindo, o contato humano segue essencial para decisões importantes. Uma das tendências centrais do relatório é a rejeição crescente da cultura de produtividade permanente, o que reflete uma valorização do descanso, da desconexão digital e de ritmos de vida mais humanos.
Marcas de tecnologia, turismo e bem-estar estão a responder com produtos e serviços desenhados para reduzir estímulos, e não para os multiplicar. Esta mudança é particularmente visível entre a Geração Z e os millennials mais jovens, que encaram a saúde mental como um ativo essencial, não negociável.