Ter a liberdade de ser quem é, na essência de como se enxerga, não é uma tarefa fácil para quem não se reconhece no corpo em que nasceu. O desconforto, a inquietação, a descoberta e a aceitação são processos que homens e mulheres transexuais passam ao longo da vida, este processo pode se dar logo na infância/ adolescência ou apenas na vida adulta, não existe um tempo certo para se libertar.
Foi o que ocorreu com Leonorah Azumi, produtora cultural e musicista que neste ano descobriu de forma natural a transição tardia de gênero e se reconheceu como mulher trans “Vim de uma família que esbanja amor quando era criança brincava de performar, porém nunca havia me identificado como transexual, fui me masculinizando com o tempo por questões familiares, depois por ter entrado na música, no rock criei essa persona masculina”.
Ela ainda chegou a ter um relacionamento heteronormativo de cinco anos, sua namorada na época sabia que sua orientação era bissexual, “Hoje esta ex-namorada minha é uma das minhas melhores amigas, estávamos lembrando que quando tínhamos um relacionamento estávamos assistindo o filme A Garota Dinamarquesa, e ela pediu para que se um dia eu transacionasse ela queria ser a primeira a saber”
Há 12 anos Norah já estava transacionando, mas não tinha esse conhecimento mesmo se assumiu como homossexual há quatro anos, sua ansiedade não passava e ela continuava a se vestir com vestimentas masculinas e usava seu nome de batismo, isso já a incomodava e ela estava sempre em modo de defesa, tudo era entendido como um ataque a sua aparência e ela apesar de trabalhar no meio cultural, sempre se sentia incomodada em permanecer por muito tempo em lugares cheio de gente e a mudança em seu psicológico ocorreu quando começou a sentir um cheiro estranho em seu corpo, cheiro esse inexistente mas que só ela sentia de forma psicológica.
“Um dia acordei me olhei no espelho e vi meu nariz completamente torto, comecei a questionar meus familiares se eles também o viam torto, claro que ninguém notava nada de diferente, tudo era meu psicológico afetado”.
Leonorah começou a tomar mais banhos, ela chegou a tomar seis banhos em um dia, a usar vários cremes corporais, o ápice de sua disforia (mudança repentina e transitória do estado de ânimo, como sentimentos de tristeza, pesar, angústia), foi quando começou a se olhar no espelho e se sentir extremamente incomodada com sua aparência, “Um dia acordei me olhei no espelho e vi meu nariz completamente torto, comecei a questionar meus familiares se eles também o viam torto, claro que ninguém notava nada de diferente, tudo era meu psicológico afetado”.
Após isso Norah notou que tudo isso na verdade era porque ela é uma mulher trans, e entrou no processo de transição, “Primeiro conversei com minha irmã sobre, depois com toda a minha família, só após isso tornei público porque acho importante que outras pessoas leiam porque elas podem se identificar”.
A TRANSIÇÃO
Leonorah conta que tudo é muito novo neste processo “Eu antes como nunca fui uma pessoa afeminada, estou aprendendo dia a dia na prática sobre como criar meus looks, como fazer de forma adequada uma make, descobrindo o meu estilo de moda dentro desse novo aspecto do que sou e agora me sinto muito mais livre pra ousar em relação a roupas e acessórios que jamais eu pensei que fosse aceita usando."
O acompanhamento hormonal está sendo feito de forma hibrida pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e pela rede particular, mas nem tudo são flores apesar de Norah estar pagando para alguns processos serem mais ágeis o preconceito ainda é encontrado pelo caminho. “Em uma consulta com uma endocrinologista em uma clínica particular ela disse de uma forma arrogante e insensível que não poderia me ajudar com o acompanhamento hormonal colocando percalços e desencorajando um processo que o próprio SUS de Três Lagoas está cuidando com muito empenho e carinho, a médica que é de Andradina- SP, nem abriu meus exames, exigi meu reembolso e sai daquela clínica, mas isso não irá me fazer desistir de mim, muito pelo contrário, precisamos reconhecer que esse tipo de gente existe seja no meio médico, social ou político (onde a problemática é ainda maior) e termos ainda mais a certeza do que somos para prosseguirmos defendendo nossas vidas.”, afirmou Norah.
Apesar dos percalços Leonorah encontra doutores que a auxiliam no processo como é o caso da Dra Laissa Mansano, que vem a ajudando no tratamento. “Ela e toda a equipe da UBS do Interlagos são pessoas incríveis, o calor humano com que aqueles profissionais nos tratam é parte importante e fundamental para o nosso processo de transição, tanto físico quanto psicológico e isso também tem me ajudado muito desde o início.'
“Nunca recuar, porque quando você dá um passo para traz seu oponente dá dois para frente para te atacar”.
A LUTA NUNCA ACABA
Norah conta que sua força vem de sua base familiar, seu irmão mais velho é uma voz importante segundo ela, “Quando fiz o post sobre minha transição em minhas redes sociais, meu irmão mais velho se posicionou e particularmente foi uma mensagem marcante, pois apesar de algumas diferenças no campo das ideias políticas, o amor, o respeito, o cuidado e o olhar fraterno para o outro ser humano sempre prevaleceu em nossa família e tendo ele como uma pessoa pública no meio administrativo e policial na cidade, a mensagem acaba sendo muito importante e isso me dá mais motivos para acreditar sobre quem sou”.
Além disso Leonorah também traz consigo um ensinamento do Kung Fu que diz: “Nunca recuar, porque quando você dá um passo para traz seu oponente dá dois para frente para te atacar”.
Se manter forte e resiliente em seu propósito e nunca se esquecer de quem você é, isso irá te ajudar durante todo o processo.