Quando li esses dizeres, logo fiz o “link” com o meu entrevistado para ser a matéria de capa desta semana - uma pessoa que encontra a sua missão de vida, se torna dono da sua história. Eu tive o privilégio de conhecer ele, que literalmente gosta do nosso tradicional Tereré, e possui seu time do coração, o Corinthians. Conversei com o diretor do Colégio Salesiano Dom Bosco de Três Lagoas, o querido amigo Padre Wilson Pereira. Com sua maior marca, que é seu sorriso no rosto, ele contou sobre sua história, seus desafios e sua trajetória.
Conta um pouco da sua história?
“Sou Pe. Wilson Pereira. Há 17 anos fui ordenado sacerdote na Congregação Salesiana de Dom Bosco. Para chegar a ser ordenado padre, foram 14 anos de estudos e vários momentos de formação religiosa e sacerdotal. De 1992 à 1994 frequentei o seminário diocesano Santo Antônio, onde cursei a Faculdade de Filosofia na cidade e Diocese de Taubaté-SP. No final do ano de 1994 - último ano do curso de filosofia, iniciei um processo de discernimento, pois surgiram muitas dúvidas se estaria no lugar certo.
Tinha a certeza de querer ser padre, mas não estava seguro se era para ser um padre diocesano. Conheci alguns salesianos numa comemoração do Dia Nacional da Juventude, que de certa forma, foi preponderante na decisão de deixar o seminário diocesano e ingressar na fase inicial da formação religiosa salesiana na cidade de Lorena, no Vale Paraíba no Estado de São Paulo.
Em dezembro de 1995, mediante aprovação dos formadores, fui enviado para dar um passo a mais no processo formativo na cidade de Indápolis/MS, iniciando o período formativo chamado Noviciado, na responsabilidade do padre mestre Lauro Takaki Shinohara, meu grande formador e exemplo de salesiano. Este foi um ano intenso nos estudos e aprofundamento da vida e obras de Dom Bosco, pai e fundador da Congregação Salesiana. No dia 31 de janeiro de 1996, na cidade de Indápolis, o noviciado é finalizado com a celebração da Santa Missa na qual professei solenemente meus primeiros votos de Pobreza, Obediência e Castidade, e fui admitido oficialmente como religioso salesiano.
Éramos um grupo de 8 noviços. Ao término da celebração Eucarística, quatro de nós fomos levados para a casa de formação do chamado Pós-Noviciado na cidade de Lorena/SP, também no Vale Paraíba. Ali frequentei a Faculdade Unisal, onde concluí o curso de Bacharelado em Pedagogia com habilitação para o Magistério e Administração Escolar. Em dezembro de 1999 negociamos com o padre Provincial da Inspetoria de São Paulo e o provincial de Campo Grande a minha transferência definitiva para a Inspetoria de Mato Grosso/Campo Grande/MS.
Estando na província, fui destinado a fazer dois anos de trabalho em comunidades salesianas distintas. No ano 2000, trabalhei como assistente de formação na casa do Noviciado em Indápolis/MS (ajudava cuidar de 12 seminaristas). Em 2001 fui transferido para Campo Grande na comunidade formativa do Aspirantado, na Comunidade Lagoa da Cruz para cuidar de 53 seminaristas que cursavam o Ensino Médio no Colégio Salesiano Dom Bosco. Com o término dos dois anos de trabalhos, no ano de 2002 à 2005, frequentei a Faculdade Studium Teológicum Claretino, na cidade de Curitiba/PR, onde conclui o Bacharelado de Teologia. Em seguida, retornei para Campo Grande para trabalhar e ser Ordenado Diácono, e no ano seguinte Ordenado Sacerdote no dia 18 de dezembro 2006, na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, na minha cidade natal, Bento de Abreu/SP.”
Em quem se inspirou para seguir sua vocação?
“Eu sou natural de uma cidade pequena do interior do Estado de São Paulo, Bento de Abreu. Nossa infância foi marcada com a presença de um padre, já com sua idade avançada, Pe. Luis Dorneles. Todos os dias estava no portão da escola, vestido na sua batina preta com os bolsos cheios de balas, cada aluno que chegava precisava tomar a benção do padre para poder ganhar uma balinha e um abraço do bom velhinho. Carrego comigo esta imagem e este costume. Num determinado dia um professor perguntou a todos o que cada um queria ser quando crescer, eu disse que queria primeiro ser piloto de avião de guerra e depois ser padre como o bom velhinho, o Padre Luis. Aos 7 anos de idade, fiz minha primeira comunhão e no ano seguinte pedi ao padre que me deixasse fazer novamente os encontros da catequese, e de lá pra cá nunca mais deixei de frequentar ou me envolver de forma direta com a vida da Igreja Católica. Fui catequista, servidor do Altar, coordenador de grupo de jovens, coordenador de eventos da Igreja, secretário do vigário, porém com a conclusão do Ensino Médio, fui morar com um tio na cidade de Rio Claro/SP. Trabalhava numa quitanda (frutaria) de domingo a domingo, com o passar do tempo, foram surgindo muitos desafios na convivência com os dois primos. O meu tio era caminhoneiro e passava 30, 40 dias na estrada, e meus primos são mais velhos então a casa virava um “bordel” na ausência do tio. Diante das dificuldades para aceitar tal situação e condição de moradia, tomei a decisão de sair e aventurar morando sozinho numa pensão do outro lado da cidade. Fui morar ao lado da Igreja Santo Antônio e passei a trabalhar numa empresa multinacional, porém os recursos não eram o suficiente para me manter e por um bom período cheguei a passar fome, mas me mantive firme na fé de que algo melhor Deus estava preparando. Num domingo acabei indo trabalhar e perdi a santa missa na minha comunidade e fui participar da Eucaristia na Paróquia Bom Jesus. Foi ali que conheci o padre Almir Franco Palheta, um ser extraordinário, encantador, um ser humano excepcional. Voltei outra vez, e mais uma vez e quando percebi lá estava eu todos os finais de semana na paróquia dele e já envolvido num processo de acompanhamento para ir fazer a experiencia do seminário. Suas formas de pregar, seu jeito acolhedor e carismático de ser com todos, e o estilo profeta de ser, me encantou e tirou qualquer dúvida quanto ao fato de ser padre. O Pe. Almir me levou para o seminário e me acompanhou durante os 14 anos de formação e inclusive no dia 18 de dezembro de 2006, impôs as mãos na minha cabeça no ato da consagração do novo sacerdote. Pe. Luis, Pe. Almir, Pe. Lauro, Pe. Rosalvino e Pe. José Crevacore foram os meus modelos de santidade de vida, e religiosos que ainda hoje me inspiram e motivam a gastar minha vida pela salvação dos jovens como padre educador e pastor.”
Pontos positivos e negativos
“Como toda e qualquer opção de vida, há seus desafios e satisfações, e também o exercício do meu sacerdócio não é diferente:
Alegrias/positivos:
Mesmo diante das batalhas, procuro ser todo de Deus e viver para Deus, em primeiro lugar. Sinto uma alegria que não cabe no peito só pelo fato de gastar minha vida, meu tempo como padre: ouvindo confissão, orientando, pregando o Evangelho de Jesus, sofrendo com o sofrimento de tantos que me procuram. Como padre educador é lindo ver e acompanhar o crescimento, a evolução, as primeiras conquistas dos adolescentes e jovens em período escolar. Como salesiano, filho de Dom Bosco, viver, estar no meio dos jovens, e poder gastar minha vida por eles, é o máximo da felicidade e fidelidade ao sonho de Dom Bosco de ver seus jovens se tornando bons cristãos e honestos cidadãos.
Talvez o maior desafio é fazer da solidão uma companheira diária. Estar longe da família e dos amigos raiz, lidar com o desrespeito das pessoas. Atualmente, eu vivo diretamente confrontado pela afronta e falta de caridade das pessoas com a figura do padre. Lidar com a intolerância religiosa, ser chamado de charlatão e ser comparado com padres que de alguma forma deixam a desejar o seu testemunho.”
Quais os maiores desafios que enfrenta nos dias de hoje?
“Ajudar as pessoas a não desistirem de Deus por causa dos desafios e das dificuldades do nosso tempo. A maioria das pessoas que me procuram não querem fazer sacrifício algum, mesmo que seja por amor a Deus. Lidar com a intolerância religiosa e com a falta de caridade alheia. Lidar com a mentira e indiferença das pessoas quando é preciso dizer não.
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“Para Deus, o importante não é o que você tem, mas sim o que você é diante do que tem. Acredite que Deus nunca te deixará sozinho. Não importa o que você tem que enfrentar, Deus está com você, inclusive agora. Afaste-se das pessoas que te põe pra baixo. Afaste-se daquelas brigas que nunca serão resolvidas e te faz perder seu tempo precioso, pois sua vida é curta e aqui estamos só de passagem, por mais que seja um passageiro neste mundo, faça e viva de forma que suas marcas sejam setas que apontem o caminho de Deus para quem vem logo atrás de você. A vida é bela, faça a diferença e não seja indiferente. Um abraço e que Deus te abençoe. Pe. Wilson! O corintiano feliz!”