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Gilson Barbosa Guimarães e a medicina por amor

Ele contou um pouco da sua bela trajetória, seus desafios que foram inúmeros, e sua missão de vida que é a medicina.

Edgard Júnior - Agitta Social
24/06/23 às 07h00

“A prática da medicina é uma arte, não um comércio, um chamado, não um negócio, um chamado em que seu coração será exercitado igualmente a sua cabeça” (William Osler). E com essa frase eu dou início a nossa matéria de capa desta semana. Ele que tem a medicina como profissão e vocação e já enfrentou grandes desafios - eu conversei com o conceituado e querido médico Dr. Gilson Barbosa Guimarães, que contou um pouco da sua bela trajetória, seus desafios que foram inúmeros, e sua missão de vida que é a medicina. E aproveito esta matéria para fazer uma singela homenagem a sua mãe, D. Antônia, que foi morar com Deus em pleno caos da pandemia do Covid-19 em Minas Gerais, deixando no coração do nosso querido Dr. Gilson e todos seus familiares, um vazio e uma saudade incomensurável.

Foto: Arquivo pessoal

Apresentação

Sou Gilson Barbosa Guimarães e tenho 36 anos. Sou médico generalista há 3 anos pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS - Campus de Três Lagoas). Eu atuo na Atenção Primária de Saúde (APS) na Unidade de Saúde da Família (USF) Santa Rita e na Rede de Urgência e Emergência (RUE) no SAMU, UPA e CORE (Central de Regulação de Vagas de Urgências).

Na APS, desempenho minhas funções como médico clínico, já na RUE, atuo como Médico Regulador e Intervencionista a depender do estabelecimento de saúde. Assim, além de trabalhar com a medicina preventiva, tenho atribuições de colocar meus conhecimentos na medicina de urgência – aquela que age no momento que o agravo de saúde se estabelece e, caso nada seja feito, a vida da vítima pode estar em risco de minutos a horas.


Em quem se inspirou para exercer sua profissão? Conta tudo do início? 

Sou o primeiro médico da família, meu interesse pela profissão iniciou-se quando acompanhava minha mãe nos diversos serviços de saúde na minha cidade de origem (Uberlândia/MG). Durante as consultas e principalmente nos corredores, consegui desde cedo perceber as mazelas que assolavam a saúde pública. Talvez o que mais chateava minha mãe não eram os diagnósticos de doenças crônicas, mas sim a falta de empatia que muitos profissionais médicos a tratavam. Já em meados dos anos 80 em Paracatu, cidade do noroeste mineiro, passei por diversas consultas com um famoso farmacêutico, o “Doutor Dedé, que foi o meu primeiro contato com o serviço de saúde e o recurso que era possível na época do INAMPS.

Outro fato inspirador foi trabalhar com uma Tenente Médica do Exército Brasileiro. Eu servi de 2006 a 2013, e em 2010, a chefia da Saúde do Batalhão, que contava com mais de 830 homens, ficou sob o comando de uma mulher de aproximadamente 1,65 m. A Tenente Desirée possuía um carisma que me fez acreditar cada vez mais que seria possível ingressar no curso mais concorrido do país na época e ela não mediu esforços para dizer que isso era possível. Uma médica negra, carioca, que eu nunca havia visto na vida, me fez acreditar que era possível e foi. Minha gratidão à Capitã Desirée Argolo!


Quais os pontos positivos e negativos da sua profissão?

A medicina abre um leque de possibilidades para as mais variadas habilidades, afinal são dezenas de áreas de atuações, diversos cargos públicos e uma sincronia de situações e protocolos. Porém tudo isso não faz sentido algum se não houver foco no paciente e em suas necessidades. Isso me atraiu muito quando ainda estava no exército, pensei em retomar meu sonho de criança. A ideia da versatilidade que um título de graduação poderia trazer me fascinou.

Outro ponto que julgo extremamente importante é o fator transformador da educação. Ainda que eu fosse bastante obstinado desde os primeiros anos de vida, eu nunca pensei em viver nada parecido com o que vivo hoje. Sonhos realizados, vidas transformadas pelo conhecimento que adquiri na academia e a satisfação dos meus amigos e familiares que trilharam todo o processo até os dias de hoje. Aquele menino Gilson da borracharia de Uberlândia tem muito orgulho desse Dr. Gilson (médico) de hoje e vice-versa. O trajeto foi difícil, mas fez com que a minha realidade hoje seja pautada na missão primeira de curar.

Como ponto negativo talvez eu sinta muito pelo mercantilismo da profissão. O antigo sacerdócio que me inspirou por diversas vezes é sufocado pelo charlatanismo que promete terapêuticas milagrosas sem nenhum respaldo científico. Sem querer generalizar, as multiplataformas digitais têm papel preponderante nesse contexto, já que conseguem, em segundos, difundir conhecimentos de cunho duvidosos colocando em xeque a ciência e seus diversos ritos em favor das famosas “mensagens encaminhadas, ou possíveis fake news”. Essa tendência faz com que o profissional médico tenha que rapidamente reconhecer e atuar de forma assertiva, fazendo um papel de conscientização e educação em saúde. Tudo isso sem nunca perder a sutileza da arte.


Quais os maiores desafios em ser médico?

Sem sombra de dúvidas o maior empecilho está no processo de educação em saúde. Falar “com” as pessoas e não “para” as pessoas. Falar no mesmo nível para que compreendam que saúde abrange “o completo bem-estar físico, mental e social também” e não somente ausência de doença como era pensado antes dessa definição ampliada da Organização Mundial de Saúde (OMS). Costumo dizer que a dipirona que eu prescrevo em regiões mais centrais não fazem o mesmo efeito em zonas mais periféricas. O social tem grande peso. Já dizia Racionais MC´s na música Negro Drama: “Periferias, vielas, cortiços. Você deve tá pensando o que você tem a ver com isso?”. O médico atualmente precisa entender o contexto social de cada situação.

Vale ressaltar que muitos pacientes acreditam que a responsabilidade em saúde é totalmente do profissional médico, mas na realidade deve existir um compartilhamento. Cabe ao médico inúmeras ações frente ao processo saúde-doença, mas a contrapartida do paciente é primordial para que a saúde se restabeleça, bem como a prevenção dos agravos. 


Deixa uma mensagem para nossos leitores?

A educação pode transformar sua realidade. Não existe determinismo social ou racial (nasci assim e vou morrer porque sou isso ou aquilo).  É necessário sonhar, estabelecer metas, executar e caso seja necessário, reconsiderar. “Conheço muitos que não puderam quando deviam, porque não quiseram quando podiam” (François Rabelais).

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