“Existem situações que servem para desafiar nossa vida, nossa essência e a nobreza dos nossos sentimentos” ECJ.
“Existem situações que servem para desafiar nossa vida, nossa essência e a nobreza dos nossos sentimentos” ECJ.
Eu concordo com essa frase em gênero, número e grau. Existem situações na vida da gente que servem para responder uma máxima: “Deus sabe onde coloca cada um de nós”. A minha convidada para a matéria de capa desta semana é a Secretária Municipal de Saúde de Três Lagoas, Elaine Cristina Ferrari Furio, que é enfermeira formada há 19 anos e pegou do início ao ápice da pandemia Covid-19. Elaine contou um pouco da sua história, sua carreira e também desse desafio, num discurso emocionado, que, garanto para você, me deixou com lágrimas nos olhos de tamanha emoção e um filme passando na mente. Elaine também falou um pouco sobre projetos e feitos que vem sendo efetuados com maestria à frente da secretaria.
Conta tudo do início - do começo até hoje da sua carreira?
“Em janeiro de 2005 iniciei minha trajetória no Sistema Único de Saúde como enfermeira na Prefeitura Municipal de Três Lagoas. Em meio ao trabalho e as especializações que cursei, atuei em diversos pontos de rede de atenção à Saúde, desde a atenção primária, média complexidade e gestão, tendo atuado na unidade de Saúde da Família Vila Haro, no antigo pronto atendimento PAB, na Clínica da Mulher e finalmente na Secretaria Municipal de Saúde, onde exerci atividades como diretora administrativa e diretora em saúde. E foi no final de 2020, que aceitei o convite para assumir o cargo de secretária municipal de saúde, sendo nomeada no dia 01 de janeiro de 2021.”
Na pandemia, você era a gestora da secretaria, ou seja, a linha de frente nas decisões. Como foi esse período para a Elaine pessoa?
“Foi um período muito desafiador! Me lembro o dia em que o prefeito me convidou para assumir o cargo. Ele me disse que tinha apenas uma insegurança: eu assumir e a Covid explodir no meu colo. Ele comentou que não seria justo comigo. Naquele dia eu apenas respondi que caso isso ocorresse, eu iria enfrentar. E parece que ele estava adivinhando, assumi e houve instalação do cenário do maior desafio de saúde do mundo contemporâneo - uma pandemia mundial - diversos países sofrendo com falta de leitos de UTI, insumos e a corrida para realizar a maior campanha de vacinação já vista na história.
Em Três Lagoas não foi diferente, falta de leitos, falta de oxigênio, anestésicos, vacinação, super lotação nos serviços de saúde. A UPA, que de um dia para o outro, contava com 60 pessoas internadas em uma estrutura que não foi criada para internação, ou seja, sem banheiros suficientes, sem cozinha, refeitório e leitos adequados.
Trabalhamos arduamente, não somente eu, secretária Elaine, mas todos os profissionais de saúde. Era o que tinha para o momento, e nossa missão dentro da secretaria era resolver o dia, não era possível planejamento de médio e longo prazo, eram situações novas todos os dias e a todo momento, exigindo decisões rápidas diante do avanço da doença e o potencial de letalidade, em especial para os grupos de risco.
Eu me lembro de situações como a vez em que recebi a noite uma ligação: a UPA super lotada, as 03 ambulâncias do SAMU estão na porta, não tem onde colocar paciente, mais chamados pra atender. O que fazer? - Não fechar as portas!
Daí abrimos em alguns dias uma outra unidade de apoio, nossa querida “Upinha” e mais leitos no HNSA para receber os pacientes da upa.
Era um dia de cada vez.
Isso sem falar das redes sociais, ser gestor na era digital já é um desafio à parte, e na pandemia eu tinha 125 mil pessoas na internet achando que sabiam o que fazer, quando na verdade, ninguém sabia nada, estávamos escrevendo uma história e fazendo o possível para acertar.
Mas, como tinha prometido, estava enfrentando.
Porém, a Elaine como pessoa, também sentia na pele a pandemia. Perdi um irmão de 62 anos para a COVID, durante o pior cenário enfrentado em Três Lagoas. Assim como muitos, ele ficou na UPA, foi transferido para leito de UTI e não resistiu. Isso foi o mais difícil, porque não aceitava, porque não me permitia viver o luto de um irmão, porque carregava o luto de uma cidade inteira nas costas. Esse era meu sentimento.”
Quais os maiores desafios que enfrenta nos dias de hoje sendo secretária de saúde?
“Os desafios continuam sendo diários, é uma pasta complexa, mas hoje conseguimos mensurar, planejar, fazer gestão. Às vezes, quando me questiono sobre os resultados do meu trabalho, olho um pouquinho pra trás e penso em todas as conquistas, a instalação dos leitos de UTI Neonatal e pediátrico que trouxemos para a região, os atendimentos de alta complexidade em cardiologia que diminuiu em 40% as transferências para Campo Grande, nos serviços que abrimos como o Serviço de Atenção Domiciliar, O Núcleo de Educação Permanente, o Consultório na Rua, a Unidade de Saúde Chácara Eldorado, penso nas farmácias e outros serviços que ampliamos, na renovação de toda a frota da saúde, nos servidores que empossamos, enfim, é muita coisa, não tem como citar tudo.
Mas é isso, precisamos aprender a lidar com os desafios e as críticas, e no meu ponto de vista, esse é o maior segredo. Quando não “carregamos” o que não é nosso, porque sabemos que fizemos o melhor, o que era possível, conseguimos seguir sem culpas e medo de julgamentos.”
E a Elaine fora da profissão, como ela é?
“A Elaine fora da profissão possui várias versões. Sou uma pessoa muito organizada, que adora ficar e cuidar de casa. Sou esposa, mãe (minha melhor versão rs), tenho algumas formações como terapeuta holística, Radiestesia, Constelação Familiar e Access. Adoro viajar, cuidar de mim, tenho rotina de treinos e quem me conhece sabe que curto muito um show e as versões do Rock in Rio.”
Deixa uma mensagem para nossos leitores.
“Todas as situações nos trazem algo, sempre procuro o que preciso enxergar de determinada situação, boa ou ruim. E todas as situações sempre vem para nos fortalecer porque sempre é sobre nós e não sobre o outro. Sejamos gentis com nós mesmos, ninguém é forte 100% do tempo e ninguém precisa ser.”