Sociais

Dora Lúcia Zuque Nunes: O Magistério e o Poder do Aprendizado

A matéria de capa deste sábado tem um sentimento familiar e de nostalgia para este colunista. Bati um papo cheio de saudade com a minha amiga querida, grande professora de língua portuguesa e inglesa, minha atual companheira de Rotary Club (grande presidente também) - Prof. Dora Lúcia Zuque Nunes.

Edgard Júnior
21/01/22 às 10h05

A matéria de capa deste sábado tem um sentimento familiar e de nostalgia para este colunista. Bati um papo cheio de saudade com a minha amiga querida, grande professora de língua portuguesa e inglesa, minha atual companheira de Rotary Club (grande presidente também) - Prof. Dora Lúcia Zuque Nunes. Falamos um pouco da sua carreira, dos velhos tempos, dos desafios da profissão e dos sentimentos mais gratificantes.

Fala um pouco sobre você e como tudo começou?

Sou Dora Lúcia Zuque Nunes, professora de Português e Inglês. Graduada em Letras e pós-graduada em Linguística.

Comecei a dar aulas aos 17 anos, ainda cursando o Magistério. Gostava muito de Inglês e fazia cursos particulares por minha conta. Eu era uma aluna nota 10 nessa matéria, e meu professor, o “Mister John” (Padre João Thomes), me convidou para dar aula no Patronato que era a escola dos padres na época. Fui mandada para o Rio de Janeiro para fazer um curso audiovisual do CCAA e passei no teste final desse curso com nota 9,8. E foi assim que comecei minha jornada de professora - dava aula para alunos de 14 e 15 anos, adolescentes como eu.

Naquela época (1972), o importante era o que você sabia, muitos professores não eram formados e eu continuei estudando enquanto trabalhava.

Em quem se inspirou para ser educadora?

No começo eu queria ser aeromoça, para dar a volta ao mundo e foi o que me levou ao Inglês, mas conforme o tempo passava, algumas professoras me inspiraram e cativaram com seus conhecimentos e maneiras de agir: D. Sálua, professora de História - que ensinava como se estivesse contando uma história da vida real com todos os pormenores e a sala toda ficava em silêncio.

D. Ana Maria, professora de Geografia - que tinha uma memória fotográfica para nomes e lugares que eu mal conseguia repetir, falava como se fosse a coisa mais fácil do mundo, e nos encantava.

E Terezinha, professora de Ciências - séria e compenetrada, desvendando os mistérios do corpo humano para nós, adolescentes ávidos de saber sobre os assuntos proibidos em casa, que ela sabia esclarecer tão bem.

Mas a que mais me influenciou foi a D. Silvia Perón, com seu jeito educado, elegante e meigo de ser. Ensinava o Inglês de uma forma simples e prática e a gente aprendia. Eu resolvi que queria ser como ela, então escolhi o curso Normal, que me levaria ao Magistério, ao invés do Científico, que na época, preparava para as faculdades de Exatas.

 

Foto: Arquivo pessoal

Qual a maior gratificação e o maior desafio da profissão?

A maior gratificação de ser professor é quando o aluno aprende e aplica o que você ensinou - no meu caso, quando cruzava com eles nos corredores da escola e me diziam: Good morning teacher - eu ficava encantada. Ou quando cantavam uma música em Inglês para eu ver que já sabiam a língua. E até hoje eu encontro alguns que me apresentam pros filhos ou netos e dizem que aprenderam a falar inglês comigo e repetem alguns cumprimentos e frases. Outro dia o carteiro foi fazer uma entrega na minha casa e me reconheceu e disse que ainda se lembrava de muitas frases e se despediu dizendo: “Good bye! Nice to see you again”. Eu amei saber que ainda se lembrava disso, porém não sabia mais o nome dele.

O maior desafio era cativá-los nos primeiros dias de aula, pois só assim me ouviriam e aprenderiam o que era necessário. Outro desafio era ensinar sem audiovisual (escolas estaduais não tinham esse recurso) e manter as aulas atraentes e prazerosas. Quando eu entrava na sala de aula, não existia vida lá fora pra mim - eu amava o que fazia. Mas o maior desafio pros meus colegas de profissão era a baixa remuneração, fizemos várias greves e muitos deles chegavam a passar fome nessas ocasiões porque o governo cortava o pagamento. Nós professores, ganhávamos menos que um motorista de caminhão na época.

Eu tinha o apoio financeiro dos meus pais, e depois, do marido e não sentia na pele essa dor. Fazíamos almoços beneficentes e formamos os sindicatos para atender esses companheiros. Foram anos de luta, e de lá pra cá, pouca coisa mudou nesse sentido, infelizmente.


Você foi Diretora por muito tempo (inclusive quando eu estudei). Foi por quanto tempo? E como foi a experiência?

Fui diretora por três anos. De 1995 a 1998. Como dizem as pessoas que foram diretores: esse é um cargo que todos deveriam ocupar pra ter certeza que, para o professor, o melhor lugar para estar e trabalhar é a sala de aula. Lá ele é a autoridade, todos o esperam, ele encontra tudo limpo e arrumado para fazer seu trabalho. Ser diretor é cuidar de todos os segmentos da escola, desde o porteiro, merendeiro, secretaria, professores, alunos, pais dos alunos, predio, luz, água, telefone, calendário escolar, reuniões, tudo tem que passar por ele, ou seja, trabalha 24 horas e também nos fins de semana e feriados - no meu caso, fiquei sem vice-diretor por 1 ano - ele foi eleito, mas veio a falecer nos dias de assumir.

Há pessoas que te ajudam e aquelas que só querem atrapalhar, e, em razão de tudo isso, o diretor acaba se distanciando dos alunos, deixando-os com os coordenadores de área. Esse foi o motivo pelo qual eu não quis me candidatar novamente. Fiquei satisfeita com três anos de muito aprendizado.

O maior desafio era ter que acatar decisões de políticos nem sempre justas, nem sempre pensando nos alunos, influenciando na Educação. Salas superlotadas, calor insuportável, pouca tecnologia ou nenhuma, que infelizmente perdura até hoje. É só comparar o ambiente das escolas particulares com o das escolas estaduais. E não precisava ser assim…


Deixa um aprendizado sobre liderança, sobre como é ser um líder para a galera?

Para ser líder é preciso ter coragem pra dizer e fazer o que acha certo. Defender os mais fracos, saber ouvir, querer transformar o mundo num lugar melhor para se viver. Como professor é cativar o aluno com conhecimento, paciência e amor para transformar positivamente a vida de cada um para escolherem um futuro melhor.

Como diz Saint- Exupéry: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". O líder é o responsável por seu liderados, o bom líder é escolhido por suas habilidades e qualidades! Ser líder é despertar no outro a vontade de seguir você, de ser como você...


 RECOMENDADO PARA VOCÊ
EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
ÚLTIMAS EM SOCIAIS
RARA Gente - A mais tradicional revista de Três Lagoas
Editor responsável:
Ivete Binda Mendonça
agitta@agitta.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2022 - Grupo Agitta de Comunicação.