A estrada de ferro propulsionou a fundação de Três lagoas e aproximou o estado ao Brasil. Caída no esquecimento, voltou à ativa e, na iminência de ser retirada da área urbana, ainda demonstra seu protagonismo na história local. As retiradas dos trilhos não tiveram força para sepultar qualquer sonho saudosista que, de resto, talvez nem exista em larga escala.
Entre os renitentes apaixonados pela ferrovia sempre haverá espaço para lembrar que a preservação da memória é uma condição para a construção da identidade de um lugar. E a memória da ferrovia é forte, não só pelos transtornos diários com as manobras de composições ou com as sucatas e abandono que transportam a cidade para o início do século XX. Dentro da historiografia local, a ferrovia tem lugar de protagonista. Foi ao redor dela que surgiu a vila de Três Lagoas, terras das quais os índios Ofaié foram levados a seguir com a chegada de bandeirantes, em meados do século XIX, e que continuou desabitada até aproximadamente 1880, época em que três fazendeiros se estabeleceram na região. Entre eles, estava Antônio Trajano do Santos, o homem que ocupou a parte do córrego Palmito e o rio Sucuriú, a Fazenda Alagoas, local que abarca as três lagoas.
Outros colonizadores chegaram, mas a ocupação estava esparsa e a porção de Trajano dse destacava, principalmente depois da chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), cujos trilhos cortariam suas terras em duas partes triangulares. A ferrovia Noroeste do Brasil começou a ser construída em 1905, a partir de Bauru (SP), com destino inicial a Cuiabá (MT). Seria uma ferrovia de penetração, buscando novas áreas para a agricultura, povoamento e comércio de terras. Em muitos lugares, chegava antes da população e da produção era o acesso ao “sertão desconhecido” — do qual Três Lagoas surgiria.
Quando os engenheiros e trabalhadores braçais começaram a montar acampamento para construção do trecho da ferrovia nas proximidades da Lagoa, em 1909, motivaram a instalação de habitações, dando origem a um pequeno povoado. No ano seguinte, o velho colonizador doou 40 alqueires, à povoação. Praças, igrejas, comércios foram erguidos. Foi realizada demarcação do perímetro urbano e um planejamento urbanístico. Em cinco anos, 1915, Três Lagoas foi emancipada.
Antes da sua finalização, em 1907, o destino da ferrovia foi mudado de Cuiabá para Corumbá. Em 1917, a ferrovia foi incorporada à União. Em 1957, era uma das 18 empresas que formaria a Rede Ferroviária Federal. Na década de 90, a estrada é privatizada, passando à Ferrovia Novoeste. O que deveria ser a retomada do progresso não prosperou. “A vida da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil é a vida do Estado", dizia o senador Ramez Tebet no Congresso, pedindo que a concessionária fosse obrigada a retomar o transporte de passageiros e de cargas. Apesar dos apelos, em 98, a ferrovia passa para o consórcio Brasil Ferrovias. Em 2002, o controle passa à Novoeste Brasil. A mudança de nome, no entanto, não promove resultados. A malha é sucateada, composições apodrecem, a inatividade é total.
Finalmente, no ano de 2006, a América Latina Logística (ALL) passa a operar o sistema. Estar no roteiro da nova estrada foi fundamental par ao município em sua formação, no seu cotidiano e na constituição cultural, econômica , política e social, em função dos migrantes e imigrantes aqui instalados. Repelida e repudiada pela comunidade, principalmente em função de seus anos de inatividade, a ferrovia deixou a cidade e os bairros possivelmente não serão mais referenciados como do lado de lá ou do lado de cá da linha. Porém ela deixou atrás de si um rastro de saudades e de história que será preservado ou perdido de acordo com as ações para tombar ou conseguir concessão do complexo arquitetônico, de propriedade da União. Entre os quais está o prédio da antiga estação, concedido à municipalidade para implantação de um museu, após dez anos de luta, em um investimento de R$ 1.5 milhão custeado pelos governos municipal e estadual. E, se a ferrovia tem em comum com os ofaiés - empurrados para outros locais do estado com a chegada dos bandeirantes, jogados de lá para cá até serem de cinco mil para 60 indivíduos - o fato de ser empurrada para fora da cidade, é um dado positivo: mais próxima dos seus clientes, este parece ser o caminho certo para a sobrevivência e para continuar protagonizando o desenvolvimento. Já a memória, preocupação dos renitentes apaixonados, ensaia tímidos para tímidos para trilhar seus caminhos. Resta esperar que não tenha o destino dos ofaiés.
Abaixo, a Gente reverencia a memória da ferrovia, documentando sua presença em Três Lagoas, por meio dos poemas da jornalista Ana Maria Barbosa e nosso editorial de moda da edição de 05 anos da revista Rara Gente – Quando ainda éramos Criativa -. Acompanhe:
