A arte de construir cenários é um dos trabalhos mais minuciosos do universo cinematográfico. Em O Agente Secreto, que concorreu a quatro indicações ao Oscar 2026, a equipe de produção conseguiu transportar o espectador para o Brasil dos anos 1970.
A partir de pesquisas em fotografias, arquivos, exposições e filmes da época, foi possível reconstruir ambientes capazes de traduzir visualmente o contexto histórico e cultural daquele período.
Mais do que contar a história de uma época, o trabalho de cenografia do longa-metragem também contribui para revelar a personalidade e o contexto de cada personagem.
Um dos pontos de partida da pesquisa realizada pelo time de direção de arte foi a própria filmografia do diretor Kleber Mendonça Filho.
Um dos cenários que mais chamam a atenção no filme são as casas de Dona Sebastiana e Geisa, onde Marcelo, personagem de Wagner Moura, passa a morar. Para criar esses ambientes, os apartamentos originais do Edifício Ofir precisaram passar por uma repaginação completa. Apesar da fachada remeter aos anos 1970, os interiores já apresentavam intervenções contemporâneas.
A diretora de arte Mariana Kinker explicou à Casa Vogue que foram fundamentais os móveis e objetos vindos de pessoas e instituições parceiras no Recife. A mesa de jantar redonda da casa de Geisa, por exemplo, foi construída a partir de um modelo vendido na Mesbla, uma das maiores redes de lojas de departamentos do Brasil, dominante nas décadas de 1970 e 1980.
Personalidades reveladas pelos objetos
Mais do que transportar o espectador para outra época, os espaços ajudam a revelar a personalidade dos personagens.
Também é possível conhecer um pouco de Geisa, personagem que sequer aparece em cena, por meio da decoração de seu apartamento. A equipe buscou contar um pouco dela pelos objetos, como explica a diretora de arte. A forma como as coisas se misturavam em sua própria organização: os quadros, livros, discos, artesanatos e as fotos de família, a escrivaninha de trabalho no quarto, conforme informações detalhadas para Casa Vogue.
Ao mesmo tempo, alguns elementos ajudam a trazer a essência do Recife para dentro dos cenários. Entre eles estão peças escolhidas justamente por seu valor simbólico para a cultura pernambucana, como obras dos artistas Bajado (Euclides Francisco Amâncio, 1912-1996) e Wellington Virgolino (1929-1988), as cadeiras pernambucanas da mesa de jantar de Dona Sebastiana e a cristaleira da casa de Alexandre, marcada pelo vidro desenhado e pelas pequenas "asinhas" laterais.
Recife como roteiro afetivo
O Agente Secreto transforma Recife em parte essencial da narrativa, explorando diferentes pontos da cidade que ajudam a construir a história de Marcelo. Mais do que simples cenários, ruas, edifícios históricos e espaços públicos se integram ao enredo, contribuindo para dar densidade ao universo retratado.
Entre os lugares da capital pernambucana que realmente existem estão: Cinema São Luiz, Ginásio Pernambucano, Porto do Recife e o Parque Treze de Maio.